.um depoimento sobre o emprego dos sonhos.

Ontem acabaram minhas mini-férias. Foi o primeiro dia de retorno ao trabalho, depois de 12 dias em casa. Exatamente na terça-feira. E ao contrário do que geralmente acontecia, dessa vez não doeu. Embora estar em férias seja delicioso (e bem melhor do que trabalhar), voltar o trabalho ontem esteve longe de ser um sofrimento. O motivo óbvio e verdadeiro é que, sim, eu gosto do meu emprego.* E isso me fez pensar sobre algumas coisas.

  1. O emprego dos sonhos não está relacionado a dinheiro. Ainda que a grana que entre seja sempre benvinda e necessária, quem ganha mil vive com mil, quem ganha 3 mil vive com três mil, que ganha 10 mil vive e gasta 10 mil. Lição: aprender a viver bem com o que se ganha e gastar as dilminhas com o que realmente vale a pena pra si. Até porque geralmente quanto mais se ganha, mais se quer ganhar. A questão é que ter um trabalho ruim para ter uma boa conta bancária pode não ser bom negócio, já que invariavelmente vai ferrar com nossa qualidade de vida, com nossa satisfação pessoal e com nossa saúde. É preciso pesar se vale a pena. Pra mim não.
  2. O emprego dos sonhos traz dores, dilemas e alegrias que o sonho não previu. Achar que algum emprego alcançará a perfeição é um erro. Mais ainda se perfeição pra você envolver pouco trabalho, ausência de problemas pra resolver e estabilidade total. Essas coisas não existem em nenhum emprego de gente normal da vida real. O meu, por exemplo, tem pais histéricos, alunos mal educados, colegas pessimistas e muita burocracia. Pra compensar, eu tenho sorrisos diários empolgantes, carinhosos e sinceros. Nos meus sonhos, eu faria o que gosto, mas eu realmente não contava com esse ganho extra em forma de afeto.
  3. Todo mundo tem que sobreviver e pagar contas, mas a vida é muito curta pra gente gastar mais de 150 horas mensais fazendo o que não gosta, em lugares que detesta, sobre coisas nas quais não acredita, com pessoas que não admiramos. É claro que pra um monte de gente não há escolha, infelizmente, porque faltou educação, porque falta informação, porque a necessidade dói na barriga dos filhos. É claro que tem gente que precisa e nem tem tempo pra pensar em satisfação. Mas se não é nosso caso, vale olhar com atenção pra nossas prioridades e possibilidades. Longe de mim dizer que vale tudo por um sonho. Não acredito no “tudo pode ser, só basta acreditar”. Mas afirmo sem medo que vale a pena optar por pelo menos uma ou duas coisas que façam sentido pra nossa cabeça e alma nessas 6 ou 8 horas diárias. Fazer o que se gosta ou estar onde se quer é muito valioso, de verdade. Vale o risco, pra quem pode corrê-lo.
  4. Investir em quem a gente é e em quem a gente ama pode ser nosso maior tesouro da vida. Sabe aquela história de que amor e conhecimento são as únicas coisas que ninguém pode nos roubar? Então. Pura verdade. Certeza 1: tudo que eu fiz por mim mesma (estudar literatura, conhecer lugares, escrever, ver filmes, ouvir música, ler, conversar com as pessoas, cozinhar, costurar) me trouxe até aqui, e me faz todos os dias ser a professora que sou. É o tal do conhecimento que ninguém pode roubar. Certeza 2: se um dia faltar a grana pro pão e leite, eu fiz bons e verdadeiros amigos, tenho companheiros fiéis e uns três ou quatro familiares que certamente me arrumariam uma cesta básica e alguns trocados pra sobreviver um ou dois meses, ou mais. Não se trata de troca ou expectativa, mas na hora dos apertos reais, o que nos vale é o amor e tempo que investimos em quem importa.
  5. Qualidade de vida está diretamente relacionada às escolhas que fazemos, e que são responsabilidade só nossa. Trabalho tem a ver com dinheiro, é verdade, mas se não estiver atrelado a liberdade e algum conforto para viver também de segunda a sexta, não haverá fim de semana, feriado ou férias capazes de compensar o tempo vendido ou o desgosto por si mesmo.

Se não cabe o emprego que sonhamos, tem que fazer caber a busca por ele ou tem que encaixar nos espaços que der alguma forma de realização ou ocupação satisfatória no meio da rotina. A gente não tem controle algum sobre a vida, mas sobre as escolhas profissionais que fazemos e de xomo usamos nosso tempo, a responsabilidade não é de mais ninguém.

Vale uma rima pobre: A vida é nossa, mas passa. A vida é nossa e gasta. A vida só é nossa se de nós não escapa, e se o caminho percorrido é a gente que traça. Vai do gosto e da escolha, o que na vida cabe e se encaixa. Uma vida mínima e vendida não basta.


* Professora de Língua Portuguesa do Ensino Fundamental II da EMEF 19 de Novembro, da rede pública municipal.

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