.o nó.

Minha tia costuma dizer, ainda hoje, que o umbigo é o nosso nó. Ela, contadora de histórias que deveria ter sido como profissão, diz que depois de Deus desenhar e construir, ele costurou-nos. E com cuidado. Por isso somos verdadeiramente únicos. (Ainda que um monte de gente tente ficar cada vez mais parecido com a maioria). E aí, no término da obra, deu um nó de acabamento. E eu diria que o acabamento até ficou bom. Mas ainda assim é só acabamento. Não representa a obra toda. Por isso não entendo essa fixação de alguns pelo próprio umbigo. Umbigo é coisa estranha de se olhar. Mas tem gente que insiste em olhá-lo continuamente. Com o olhar fixo não se vê bem o que rodeia e quem passeia ao lado. Com a cabeça virada pra própria barriga, como se pode encontrar beleza alheia? Como se pode encontrar? Sinto que nessas pessoas, tudo é reflexo do que se ouve ao longe. Os ecos da informação midiática se misturam aos ecos das palavras de amor, das canções de rádio, das fofocas alheias, das conversas de feira. Tudo bem misturado passa a ter o mesmo peso. E deve ser por isso que a esses, sobra mesmo a repetição das ideias comuns. Deve ser por isso que pra esses tudo parece ter preço pra poder ser vendido ou comprado. Deve ser por isso que nada de humano se valoriza. Deve ser por isso… E é bem nesses momentos, quando me deparo com uma pessoa tão virada pra si mesma que tenho vontade de crer que tudo o que minha tia conta é verdade. Somente pra poder dizer, em alto e bom som: “é apenas um nó, meu caro. Apenas um nó!”.

Arquivo: Agosto/2013.

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