.o esconderijo do ódio.

Toda vez que alguém xinga no trânsito legitima a violência. Sempre que alguém diz querer a morte da presidenta ou do Lula ou dos seus eleitores se reafirma a violência. Quando se chama Umbanda e Candomblé de macumba fundamentaliza-se violência. Cada vez que se passa no farol vermelho, que se fura a fila, que se empurra no metrô, a agressão se reafirma. Uma vez que se criminaliza a mulher pelo aborto se valida a violência. Quando se questiona a roupa de uma mulher que foi estuprada mais violência é reforçada. Sempre que se nega a existência do racismo, agressões são ignoradas. Quando rimos de piadas preconceituosas, legitimamos o insulto. Se afirmamos que homossexualidade tem cura, somos cúmplices de violência. Se não reagimos ao ver uma mulher ser encoxada no transporte público, somos coniventes com a agressão. Toda vez que se pede a volta da Ditadura, incentiva-se tortura. Ao ignorar os assassinatos da juventude negra periférica, estimula-se a violência. Quando um professor comenta pejorativamente sobre o jeito “afeminado” de um menino ou o jeito “masculinizado” de uma menina, ele contribui para a violência. Se um chefe de algum tipo de trabalho impõe que um negro ou negra corte ou alise o cabelo ele está cometendo uma agressão. Toda vez que não se paga devidamente por um trabalho, é uma exploração. É agressivo quando não cede o lugar (seja ele qual for) à pessoas idosas ou com deficiência. Mexer com uma mulher bonita na rua é violência. Encurralar uma moça na balada também. Minimizar o sofrimento causado pela homofobia, pelo machismo, pelo racismo, é uma agressão. Quando um médico omite informações ou manipula-as para desencorajar o parto normal, ele eatá sendo violento. Estimula-se violência quando se caracteriza imigrantes como invasores. Cada vez que se chama a Dilma de vaca, puta ou vagabunda incita-se violência. Quando um pai ou mãe diz ao seu filho que Oxum, axé, Exu, Iemanjá e Cosme e Damião são coisas do diabo, incita-se violência. Toda generalização, além de burra e superficial, é agressiva. Instiga-se violência quando se prega que as famílias beneficiadas por “bolsas” e “incentivos” estatais são acomodadas e folgadas, assim como minimizar a necessidade de cotas nas universidades. Fazer recortes de falas alheias para manipular notícias, textos, informação é violência. Divulgar vídeo íntimo de seu parceiro ou parceira sem consentimento é violência. Gordofobia também é violência. Quando subestima-se a capacidade de uma menina fazer contas e ler mapas ou de um menino escrever poesia e costurar é uma agressão. Quando uma mãe ou pai impedem que seu filho dance e sua filha jogue futebol reforça-se a agressão. É co-autor todo aquele que sabe o que deve ser feito e não o faz. É cúmplice todo aquele que não pensa em suas atitudes cotidianas. Agride também quem se refugia em doutrinas. Insulta quem ri. É violento todo aquele que não olha o outro e o ama e respeita como a si mesmo. Não se pode esquecer, nem por um instante, que o ódio se esconde atrás das agressões cotidianas e das pequenas violências diárias, onde camuflado, ele se abriga, alimenta e cresce.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade não há… (Renato Russo)

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