Memorial do Convento – José Saramago

Um dia, no ano de 2009, me apaixonei por José Saramago. Na verdade, os alvos de minha paixão foram Baltazar, Bartolomeu e Blimunda.

Memorial do Convento
Memorial do Convento (Companhia das Letras)

O livro, num primeiro olhar, traz uma aproximação trivial, um passeio superficial pelos contornos de cada um. Mas passado esse começo, com meu olhar já mais atento, fui surpreendida pela riqueza de detalhes, e por essa história de amor, estruturada em reconhecimento do outro.

Meu amor, assim como o de Blimunda Sete-Luas e Baltasar Sete-Sóis, é banhado de atenção e cautela.

Eu, que não dispenso uma boa aventura + mundo mágico e encantado, me surpreendi com a força de um e de outro nesse enredo crítico e maravilhoso de Saramago, que alterna ficção e realidade com perfeição. A vontade dos outros. A Passarola. O encantamento de poder ver dentro dos outros. Em um enredo que tem como pano de fundo a construção do Convento de Mafra e a construção da Passarola, e fala da exploração dos pobres pelos ricos e a luta contra a autoridade estabelecida, corrupção religiosa e inquisição.

O que aprendi nas aulas de Literatura:
  • Se a história começa em “dezessete de novembro deste ano da graça de 1717” e acaba na data da morte do escritor brasileiro Antônio José da Silva, o Judeu, a história “dura” 22 anos.
  • O narrador alterna entre primeira e terceira pessoa (cambiante), e é onisciente. Seus comentários, muitas vezes em tom irônico, e críticas que refletem o pensamento de um homem de nosso tempo, que analisa o tempo passado de seu povo e de seu país, e com essa visão vantajosa, estabelece um paralelo entre o passado e o presente.
  • A hisória acontece em Mafra e Lisboa, representando tanto o espaço geográfico, quanto o espaço social.
  • Há no enredo personagens históricas como D. João V, D. Maria Ana Josefa, Domenico Scarlatti (músico italiano), João Frederico Ludovice, o padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, entre outros.
    Um trecho pra dar água na boca:

“Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete-Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo. Deitaram-se, Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração. Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bate de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue. Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.”

Obrigada por isso (e tudo mais), professor Carlos Rogério Duarte Barreiros.

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