.melhor dúvidas do que certezas.

O tempo nos torna naturalmente menos tolerantes: às músicas que consideramos ruins, aos filmes que não nos fazem rir e às pessoas que pensam diferente da gente. Com o passar dos anos, os nossos estudos, os nossos erros e acertos, e as longas conversas que temos com outros e com o espelho, nos tornam imunes a certas doenças e sensíveis demais a outras. A gente, com a vida, vai provando, por 2 + 2, que assim dá mais certo que assado, e que esse é o melhor jeito de fazer isso ou aquilo. Mas somos falíveis. É preciso lembrar. Nunca estamos completos. É preciso lembrar. Não sabemos tudo e nunca saberemos tudo. É preciso lembrar.

Vez por outra, a gente bem precisa de um restartar de pensamentos, pra ver se tá tudo no mesmo lugar, pra entender se há algo mais que se possa encaixar no que já é tão certo pra gente. As nossas certezas, quando encaixotadas no fundo do armário das nossas vidas, costumam amarelar, e perder, com o tempo, seu uso e sua validade. Até nossas verdades precisam de ar.

Não há problema algum voltar atrás. Mas insistir em convicções que só servem ao ego, ao passado ou ao medo de parecer “bandeirinha” é mesmo pra gente preguiçosa. Ter convicções dá trabalho. Se decidirmos partilhá-las, ainda mais. É preciso conferir, comprovar, entender, questionar. E tudo bem se novas dúvidas surgirem. O mundo está cheio demais de gente pronta para palpitar. E um palpite sem base não serve pra nada.

Talvez por isso, seja mais produtivo gostar de gente bagunçada e que tem dúvidas. Gente que encara cada uma de suas certezas construídas, como um caminho para outras descobertas e novos questionamentos.

Gente que não erra, incomoda. Gente que acha que não erra, incomoda. Gente que só erra, mas sempre está com o dedo apontado pros erros alheios,  incomoda ainda mais. Piores ainda os que fingem que o erro do outro é menos justificável que o seu próprio. Incomoda quem só busca crítica e não aponta soluções. Ditado bom é aquele: “O macaco senta no próprio rabo pra reparar no rabo alheio”.

Nunca saberemos de tudo. Fato. Mas enquanto estivermos dispostos, realmente dispostos, a aprender e repensar, poderemos nos considerar mais úteis do que macacos, a sentar nos próprios rabos e repetir comandos alheios em troca de bananas.

“Me canso fácil dos preciosos intelectos que precisam cuspir diamantes toda
vez que abrem suas bocas”.
(Bukowski)

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