.espelho.

Família é espelho. E por mais diferente que sejamos de todos os outros, há sempre algo de característico que nos lembra de onde viemos, ainda que seja o cenário atrás de nós. O emaranhado de traços genéticos e histórias formam também essas ligações automáticas de sentimento e apropriação que ora nos impulsionam a desbravar o mundo, ora nos aprisionam em colos, em lares, em culpas. Enquanto a gente olha o reflexo nesse espelho familiar, a gente vê canções, cheiros, abraços. É onde se encontra sombra e luz.  Deles, com o tempo, a gente revela ou reproduz de tudo um pouco, as vezes sem querer, as vezes não. O nosso caminho é também composto de reprodução e de muitos sentidos que aprendemos enquanto olhávamos primos, avós, pais. Enquanto o espelho nos mostra o olho que se parece com o do tio, o cabelo que era da vó e o formato do dedo mindinho do pé que a família inteira tem, a gente acaba reconhecendo também o tanto de teimosia e bagunça que imitamos. Tem drama, tem excesso e tem um rio de defeitos de fábrica, mas tem também o espaço onde aprendemos a amar. Tem o seu valor olhar no espelho e encontrar o sorriso de um monte de gente que já nos amou de graça, e nos acolheu e abraçou, em diferentes momentos da vida. Não precisa ser retrato estático de quem somos e de onde estamos. Sendo espelho, família tá ali pra caber esse olhar apurado da construção de nós mesmos, das escolhas que fizemos e de quem nos acompanha nessa trajetória. Uma nostalgia do pertencimento. Um chão necessário pra gente não vagar sem rumo. Tem gente e história que vai ficando emoldurada e distante no pano de fundo, e tem o que segue refletido nos nossos próprios traços, na natureza das nossas ações mais instintivas, nos atributos mais certeiros que temos e no caráter nosso de cada dia. Olhando de perto a gente consegue perceber de onde vem exatamente isso que nos torna únicos, por cópias e imitações ou por rupturas e distâncias. Porque no fundo no fundo a gente se parece mais do que pensa, e não é fácil escolher as características certas que queremos apagar, a medida exata  do afastamento que seria bom manter e as repetições com as quais se deveria romper. Família serve pra isso também: pra ser reflexo, claro, e pra ser reflexão.

Família

Três meninos e duas meninas,
sendo uma ainda de colo.
A cozinheira preta, a copeira mulata,
o papagaio, o gato, o cachorro,
as galinhas gordas no palmo de horta
e a mulher que trata de tudo.A espreguiçadeira, a cama, a gangorra,
o cigarro, o trabalho, a reza,
a goiabada na sobremesa de domingo,
o palito nos dentes contentes,
o gramofone rouco toda a noite
e a mulher que trata de tudo.O agiota, o leiteiro, o turco,
o médico uma vez por mês,
o bilhete todas as semanas
branco! mas a esperança sempre verde.
A mulher que trata de tudo
e a felicidade.

(Carlos Drummond de Andrade, em Alguma Poesia)

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