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O mundo não tinha fronteiras. A pangeia não tinha divisões. Os movimentos da Terra afastou continentes. E daí em diante: rachaduras, fissuras, limites. A gente aprendeu a separar mais ao invés de juntar. Dividimo-nos em hemisférios, países, estados, cidades, bairros. Não satisfeitos, separamo-nos em periferia e centro. Criamos linhas no chão que nos separam em mais ou menos civilizados, primeiro e terceiro mundo. E criamos condomínios fechados. Como se um pedaço do mundo passasse a ser nosso quando pagamos por isso. E aí quem não paga não tem lugar no mundo, não tem chão, não tem teto. Vendemos as terras dos índios, que haviam chegado antes. Desapropriamos. Afastamos. Marginalizamos. Roubamos pessoas de outros lugares para trazê-las para outro canto onde não seriam donos de nada, onde não teriam lugar. Fizemos de reis e princesas, escravos. Apartamos. Acorrentamos. Subjugamos. Criamos, então, fronteiras no ir e vir das pessoas. Construímos estradas e rotas no céu pra poucos. Erguemos todos os dias outros muros de preconceito e de indiferença cuidadosamente acoplados aos nossos portões bem trancados. Moramos em apartamentos que nos apartam. E a cada muro, mil portas trancadas, e a cada portão, mil grades nos quintais, nas terras, nos olhos, no coração. Quando o mundo não tinha fronteiras, os homens e mulheres eram viajantes, desbravadores. Agora, cheios de paredes, vemos o mundo e as pessoas por frestas em janelas e telas. Apegados ao que ilusoriamente temos. Vivemos protegidos, covardes e egoístas dentro das cercas que construíram pra nós. Cegos para a luz que entra pelas brechas das divisórias. A falta de visão é o que nos impede de desbravar os outros, nós mesmos e o horizonte. É a escuridão que nos deixa apáticos, incapazes de enxergar no outro, semelhanças. Só somos livres quando não nos achamos donos de nada. É preciso desenterrar elos. Para abraçar é preciso que se derrubem fronteiras, catracas e cercados que nos impedem de ver que está tudo conectado. A violência e a injustiça contra um vai sempre refletir em outro, e outro, e outro, até chegar em nós. Um ato de amor também. Ninguém está seguro.

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