.e o passado é uma roupa que não nos serve mais.

De vez em quanto, a gente desacelera e olha pelo retrovisor. E entre rostos desconhecidos e calçadas empoeiradas, tudo aquilo que passou. Sem arredar a mão da marcha, a gente para pra tentar ver com calma se nada de importante caiu pelo caminho. As coisas, as gentes, as histórias, as paisagens. É rotina verificar que um monte de coisa não coube no bagageiro e que, de um monte de jeito, deixamos sinais de fumaça e restos pelo caminho. A fim de? Para quê? Não se sabe ao certo. Nem sempre a gente quer de verdade ser seguido ou encontrado. Certas fugas também têm o seu lugar. 

A gente olha pra trás pra ver se reencontra: a si mesmo, aos outros, velhas bifurcações duvidosas. Nada se acha. Atravessadas as devidas fronteiras,  ninguém se reconhece mais. Se não nos fazemos novos, petrificamos. E petrificar significa, além de tudo, morrer um pouquinho. E se o caminho fosse outro, outro seria o tempo, os termos, o destino e os companheiros. 

A gente para e, de longe, enxerga que vimos mapas de ponta cabeça, ouvimos muito ao GPS, desconsideramos senso de direção e escolhemos mal o destino. Acontece. Quem nunca se perdeu numa viagem?

Teve amanhecer, teve pôr-do-sol. Teve pequenas batidas. Bruscas freadas. Neblina, estrada de terra e temporal. Sobrevivemos. Carregando na alma, as marcas de susto, de medo e quase-morte. Quem nunca deu perda total uma vez não sabe o que é renascer.

Vez por outra, a gente reconhece o rosto do motorista ao lado ultrapassando. Sorrimos. Cumprimentamos. Mas já não nos acompanhamos mais. É tudo novo.  E certos encontros só pertencem à cidade anterior. É preciso seguir viagem. 

A gente se mune de lembrança, passageiros permanentes, cinto de segurança e destino. E segue. Muda tempo de chegada, refaz rota, para pra descansar. E segue. Abastece aqui e ali, aproveita o acostamento pra esticar as pernas, enche os olhos de estrada a frente. E segue.

Pé no freio, mas o tempo é implacável. O sinal verde também.  

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