.das razões que a vida (não) tem.

E a vida lá tem razão? E a vida lá faz sentido? Que sentido a vida tem? O sentido que a gente dá? Significação nula: Começo, meio e fim? Deus que sabe? Quem sabe de deus? Onde tá escrito? É o que acontece depois? Só importa o depois? E o que a gente faz durante? Pra onde a gente vai depois que acaba? E se não for pra lugar nenhum? E quem disse que acaba? E quem disse que não? Importa saber? É só esperar? E o que se faz enquanto isso? A vida vale? Vale a pena a vida? Por quê? Pra quê? E no fim tem que ter fé? E fé o que que é? E se eu não quiser? Posso me isentar de opinião? Empurrar com a barriga? Ter medo da morte? Fingir que não vai chegar? E pra que serve tudo isso? Procriação? Diversão? Exercício pra alma? Alma existe? Quem disse? Uma luz? Devo acreditar em quem? Em que? E tem que ter objetivo? Posso só aproveitar o agora? E quando tudo dá errado? A gente corre pra que lado? Ter esperança ajuda? Atrapalha? Não faz diferença? É só caos? A gente fica à deriva? Posso confiar em algo sem saber o que? Vão me cobrar depois? Que preço pela crença? E se eu não tiver como pagar? E se eu não quiser pagar? E se a vida que é só isso for o tudo que eu posso ter? E se é hoje que vale? A intensidade que vale? Os amores que valem? As pessoas que valem? A descoberta que vale? E se não tiver sentido algum? E se o sentido for o que a gente escolhe? E se a vida for uma sucessão de caminhos por onde andamos? E se esse “só isso” for pano de fundo pra um “tudo isso” que a gente fica com medo de acreditar que é tão grande assim?

 — A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos – viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.[…] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.

— E depois que morre? — perguntou o Visconde.
— Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?

(Monteiro Lobato)

 

Arquivo: setembro/2009

Comentários

Comentários

2 thoughts on “.das razões que a vida (não) tem.

  1. Mônica

    Já devem ter lhe perguntado, mas eu ainda não, então: já pensou em publicar um livro?

    Na boa, você tinha que estar em alguma livraria. rs. Beijim.

    • todacolorida

      As vezes eu penso nisso, sabia? E a ideia acaba morrendo porque eu sempre acho que preciso melhorar um pouquinho ainda… rs
      De qualquer modo: obrigada! Deixou meu dia mais feliz. =)

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