.meninas feministas.

Dia 8 de março foi o Dia da Mulher, mas todo dia é dia de a gente pensar sobre o que é possível fazer para minimizar os danos da nossa sociedade machista e começar a construir uma sociedade com mais igualdade.

Nesse post, quero dividir 3 livros incríveis para pais, professores, crianças e adolescentes. Os três são escritos e/ou organizados e ilustrados por mulheres, o que já é maravilhoso por si só.

O primeiro livro é da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e chama-se Para educar crianças feministas.

Escrito em forma de correspondência, sua leitura é leve e rápida, mas promove uma série de boas reflexões sobre nossas ações do cotidiano. Fala do exemplo, de autoestima e de criticidade. Deveria ser leitura obrigatória para toda professora e mãe de meninas.

O trabalho de um professor de escola pública consiste em ensinar e cuidar de (em média) 30 crianças (as vezes muito mais e as vezes um pouco menos) por período. Crianças cheias de questões, de defasagem e de carência.

O professor tbm se formou na universidade, leu livros e tirou notas, que nunca o ensinaram como seria estar dentro de uma sala de aula, mas que deram um trabalho danado – como imagino ser a maioria dos cursos universitários.

Além disso, o professor tem que, no decorrer da carreira, aprender a se virar na resolução de conflitos, na falta de recursos físicos da escola e nos dramas mais surreais que uma sociedade cheia de violência e descaso pode trazer pra dentro da escola.

Somado a isso tudo, o professor é cobrado a ter amor pelo que faz. Mesmo tendo que, em muitos momentos, lidar com gestões injustas ou incapazes, pais completamente ausentes e alunos desinteressados.

Apesar de tudo isso, eu conheço professores maravilhosos, que dispensam um monte de tempo da sua vida fora da unidade escolar para preparar atividades bacanas, propor passeios educativos, buscar informação e ajuda pra seus alunos. Eu conheço professores ruins também, mas é como eu sempre digo: um professor bom vale por 3 ruins (que não são maioria, eu garanto).

A gente gasta tempo, dinheiro e sentimento dentro da sala de aula e, algumas vezes, fora dela tbm.

Por isso, acho tão surreal que quase todo ano, a gente tenha que brigar e tentar convencer a população e o governo de que nossas lutas por ajustes salariais e mudanças estruturais são justas e necessárias.

E sim, professor concursado até que não ganha tão mal comparado à população brasileira, mas ta longe de ganhar o que merece pelo que faz.

Só pra constar: o auxílio moradia dos juízes tem mais altos valores do que os salários de um monte de professores da rede. Eu não desmereço o trabalho deles, embora ache seu salário e benefícios abusivos. E por isso, não aceito que desmereçam o meu trabalho, e questionem o meu salário e a minha (distante) aposentadoria.

.dia do Índio – outro olhar.

Um amigo meu que é também professor escreveu: “Amanhã é dia de pintar o rosto e colocar pena na cabeça da criançada, pra homenagear quem sofre golpe desde 1500“. Ele que, diferente de mim, trabalha com turmas do Fundamental I, de 6 a 10 anos, conhece bem essa repetição anual que vem com o pacote completo de pena na cabeça, cara pintada, índio sem roupa e de arco e flecha na mão, música da Xuxa, algumas lendas e nenhuma discussão e desconstrução. Isso também se repete para aos alunos mais velhos ou simplesmente nada se fala sobre o Dia 19 de abril. Mas dá pra ser diferente.

Existe uma quantidade enorme de formas de abordar as questões indígenas em sala de aula. E, mais do que isso, existe conteúdo bastante bom pra todo mundo que mora fora das aldeias, mas sabe que precisa entender de questões que saem do âmbito do próprio umbigo.

As reflexões cabem a todos, o conhecimento cabe a todos e a desconstrução de um imaginário ultrapassado também.

Em sala de aula, a gente cria jeitos de tornar o assunto atrativo e propor discussões. Neste ano, como ponto de partida, usei fotos (aqui, aqui e aqui), dados do IBGE e reportagens recentes sobre a questão indígena. O ponto de partida para nossas conversas sobre tudo que olhamos foram 5 palavras: História, contexto, empatia, análise e questionamento.
Clique aqui para ver a primeira etapa do trabalho dos alunos

Eu, nas minhas aulas de Português e de Projeto (de Escrita e Fotografia), e a professora de Ciências, em suas aulas, nos organizamos para trazer informações novas aos alunos para garantir que essa semana não passasse em branco. Na próxima semana, juntas, vamos passar um vídeo (A luta dos povos esquecidos) para as turmas de 8° ano (nossos alunos mais velhos) para aprofundar a discussão. 

Sendo ou não professor, sendo ou não aluno, as indicações que se seguem se fazem necessárias para a formações de um olhar mais humano e, ao mesmo tempo, politizado sobre as questões indígenas:

Livro: Coisas de Índio (Daniel Munduruku)Resultado de imagem para Coisas de índio: versão infantil

O livro Coisas de Índio traz o olhar indígena para suas próprias vivências e as pluralidades existentes
nessas.
Daniel Munduruku é nascido em Belém, escritor e professor brasileiro, pertencente à etnia indígena mundurucu. É graduado em filosofia, história e psicologia. Tem mestrado em antropologia social pela USP. É doutor em educação também pela USP. É Diretor-Presidente do Instituto Uk´a – Casa dos Saberes Ancestrais.
Além desse, ele tem muitos outros livros sobre a questão indígena.
As Salas de Leitura das escolas e Bibliotecas da Prefeitura de São Paulo têm alguns títulos, além do Coisas de Índio: Kaba DarebuHistorias de ÍndioCrônicas de São PauloHistórias que Eu Vivi e Gosto de Contar, e outros.

.5° ano C.

meninos pequenos conversam
dividem entre si, os sonhos
suas graças
seu afeto
a gente fica de costas
enchendo a mão de giz
machucando as cutículas
desenhando letras pra ninguém
melhor seria desvendar palavras ditas
distribuir asas ao pensamento
dar sentido ao riso
e rir junto também
amá-los de volta
como só é possível amar quem ainda não cresceu
meninos pequenos ainda têm tempo de achar caminho
ajuda se ouvir com a alma
e olhar nos olhos

.a educação nossa de cada dia.

Fim de férias. Recomeço de ano letivo. Novos alunos. Novos colegas professores. Outros pais. Velhos comentários. Meu filho não tem jeito. A educação vai salvar o Brasil. Retenção or not retenção? E a verdade acaba por nos escapar das mãos: a educação não se faz somente na escola.

Discussões recentes sobre a reforma do Ensino Médio nos fizeram pensar sobre Sociologia e Filosofia na escola. E até sobre as velhas e boas conhecidas: História e Geografia. Precisa? Pra quê? Tem ou não tem que falar de gênero na escola? E de política? E de preconceito? Religião? Racismo? Onde é que fica o conteúdo?

Todas as discussões são pertinentes desde que a gente não se esqueça (nunca se esqueça!) que educação não se faz só na escola. E claro que isso inclui o “por favor, obrigada, com licença” que se aprende em casa. Mas inclui também os exemplos midiáticos do “compre isso e aquilo”, “ouça aquilo e isso”, “faça, coma, dance, escute, olhe, critique, esconda-se, odeie”. Inclui até os exemplos “distantes” de todo dia: o cara que não para na faixa de pedestres, a moça que joga papel de bala no chão, o empurra-empurra na entrada da porta do trem. Por esse ângulo, a gente percebe que a violência também vai educar, se não houver quem mostre diferente. Tudo é exemplo. Tudo é educação.

Não nos esqueçamos: a escola reflete a sociedade. Não o contrário. Os professores são pessoas de esquerda e de direita, mulheres e homens, héteros ou não, cristãos e não-cristãos, machistas, racistas, que ouvem samba, rock, reggae e funk. Os professores, os diretores, coordenadores, a equipe escolar inteira e os pais dos alunos são essas pessoas que a gente encontra na rua todo dia, com formação universitária e sem, de universidade boa e de universidade ruim, gente que não sabe ler, gente que sabe ler, mas não interpreta texto muito bem, gente que já assediou ou já foi assediada, que tem poupança no banco e não tem, que gosta de viajar e que não tem dinheiro pra isso. Tem quem gosta de praça, parque e rua, e quem prefira televisão e cinema. A escola carrega em si um monte de seres humanos de todos os jeitos, representantes de todas as tribos. Todos os adultos que constroem a escola são pessoas, antes de tudo, como as que cruzam nosso caminho diariamente. E, ó, por experiência própria: tem gente maravilhosa e tem gente não tão maravilhosa assim.

E os ocupantes das carteiras e cadeiras em fileiras na sala de aula também são pessoas retiradas dessa mesma sociedade tão diversa e tão doente. São pessoas em formação, que dependem muito da Matemática e Português, claro, mas que dependem muito mais de uma formação humana capaz de fazê-los ir em frente apesar das mazelas de sua vida sem prejudicar o outro, sem destruir o entorno.

Não é a toa que a convivência escolar é tão difícil. Não é assim também fora da escola?

Colocar toda responsabilidade da salvação da humanidade na escola é, não somente uma utopia difícil de alcançar, mas uma fantasia impossível. Porque educar vai muito além de fazer contas e ler rótulos. Isso, acredite, a escola já alcança em grande porcentagem. Prova disso é a considerável diminuição do analfabetismo nos últimos anos. Mas acontece que educação vai além, e inclui tudo, todos, diariamente. Cada exemplo conta. Cada possibilidade conta. Cada oportunidade, cada cena, cada acesso.

A educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano, e inclui sim o conjunto de métodos de pedagogia, didática e ensino, mas envolve também  conhecimento e observação dos costumes da vida social; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia. E muito mais.

Por isso, a Filosofia, a Sociologia, a História e a Geografia são essenciais. Tanto ou mais que a Matemática e o Português. É indiscutível. E a pauta da educação se estende a tudo que nos cerca e cerca nossos jovens: alimentação, cultura e lazer, os espaços públicos, o respeito à diversidade e a forma como se faz política. Tudo que fará parte da vida deles deve ser visto, aprendido e discutido de algum modo, na escola e fora dela: relacionamentos humanos, inclusive. sem desconsiderar quem eles já são, é preciso oferecer outras boas alternativas de ser.

Educação inclui disciplina, preparo, prática, humanização, autoestima, saber e sonho. Inclui investir em quem somos e no que deixamos pro mundo, em forma de legado material e exemplo. Estamos todos em construção. Os alunos da escola ainda mais. Um professor pode fazer muito por uma criança ou um adolescente. Mas enquanto não formos todos, em maioria social, bons educadores, a escola não será suficiente.