.as outras.

“Nenhum homem é uma ilha isolada”, disse John Donne. Nós também, mulheres, não somos capazes de sobreviver sem que nos cerquemos de outras partículas de terra firme.

Desde cedo a gente aprende a competição, aprende a disputa, aprende os padrões a serem seguidos, as normas, as regras que nos afastam umas das outras, e da nossa própria liberdade de ser e de pensar. E sozinhas, nós carregamos o peso de ser mulher nesse mundo (ainda) dos homens, machista e caótico, com o adendo de um capitalismo massacrante. Sozinhas.

Não demora para que a gente perceba que para sobreviver é preciso abdicar da fragilidade que nos é estereotipada, para nos munir de uma força e coragem que se misturam a sobrecarga e sacrifício. Porque é nossa a responsabilidade de manter casamentos, de criar filhos de bem, de produzir perfeitamente e ainda estar bela e sorrir.

Não que esse mundo seja descomplicado e dócil para bons homens, mas cada mulher carrega um fardo a mais a que acabamos por nos acostumar. O medo, a sólida resiliência, o altruísmo inabalável.

Seguimos exemplos de mulheres maravilhosas que, apesar disso, despiram-se de vaidade, abriram mão de liberdade e renunciaram de si mesmas e do respeito que lhes era devido. Mulheres que viveram à sombra de homens muito menores de espírito e capacidade que elas. Que fizeram muito menos, que foram muito menos. Menores, pra não dizer pequenos. Homens pequenos que carregaram mérito de terem como suporte mulheres muito talentosas e sagazes, embora assustadas e sozinhas.

(Não me canso de ouvir, agora que sou mãe, história de outras mães de outras gerações que tiveram seus corpos violados e machucados, e que não tiveram em quem se apoiar. Que viveram ao lado de homens que exigiam almoço ao meio-dia e que foram incapazes de trocar uma fralda sequer).

Temos hoje, a obrigação de sermos diferentes, embora olhando-as como preciosos exemplos de valentia e fonte de  valioso conhecimento.

A verdadeira bravura não está em dar conta de tudo que nos é imposto. A nossa força real se molda em sabermo-nos mais resistentes juntas. A nossa astúcia pode se achar na vivência da mulher ao lado. Nossa direção e foco podem estar na outra que foi na frente iluminando caminhos. Nossa energia, habilidade e sustento podem ser encontradas na mana que se faz presente. A gente precisa, a gente merece, a gente deve ter abraço que sirva de abrigo, olhar que seja esteio e palavra como suporte seguro. A gente também pode pedir socorro. Não é preciso ser firme e implacável o tempo todo. A gente também pode errar e ficar despenteada um mês inteiro.

Onde uma é falha, a outra pode ser preenchimento. E o que nos transborda pode acabar por ocupar espaços vazios de outras mulheres também. Rede de apoio para que a queda apenas assuste sem que nos quebre definitivamente. A gente precisa e merece ter.

Juntas, a gente se faz continente, donas da própria história.


Obrigada a todas que me ajudaram (e ajudam) a sobreviver.

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Last Modified on março 29, 2018
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