.a sala de aula.

A sala de aula não é pra qualquer um. A sala de aula é barulhenta, as vezes pequena e abafada, nem sempre receptiva. Engana-se quem pensa que a sala de aula é o palanque onde se ensinarão Língua Portuguesa Ciências, Geografia, Matemática. Talvez seja isso também. Não só.

Gostem ou não, a sala de aula é feita de troca. Troca de olhares, troca de humores, de conhecimentos, de palavras, de atenção e hostilidade. Como num círculo vicioso, o nosso descuido com a preparação de uma aula volta em forma de descaso, assim como um sorriso de boa tarde pode voltar em forma de poesia bem feita ou lição de casa entregue. Tudo que se diz numa aula, nas entrelinhas ou não, circula de um a outro, de um a todos, de todos a cada um. Traspaça janelas, portas e paredes. Não importa quão secreto seja um assunto, ele atravessará as paredes em forma de risos, carinho, ações. Cada movimento feito dentro da sala de aula reverbera positiva ou negativamente a depender de quem o impulsiona e de quem o recebe. Muitas vezes é possível escolher.

É preciso entender a sala de aula como um pedacinho do mundo. O mundo e suas desigualdades, suas pessoas de mau humor, seus cancerianos, arianos e leoninos, seus protagonistas bem ou mal intencionados. A sala de aula tem gente potencialmente de direita e de esquerda. Tem gente do pagode, do funk, do sertanejo. gente que acredita em Deus e gente que não pensa sobre isso. Como na vida dos adultos, tem gente sofrendo de amor e gente afim de chutar o balde. Quando abrem-se os portões da escola, um pedaço do mundo vem na bagagem de cada pessoa que entra. Elas e suas mazelas, elas e seus sofrimentos, elas e sua vontade de mudar o mundo, elas e todas as marcas sociais, elas e suas intenções. Por isso, numa sala de aula cabe de tudo. Pro bem ou pro mal, dá pra chorar de alegria e rir de desespero e angústia.

Como no mundo, as pessoas de uma sala de aula nos atingem em cheio. Não há avental que seja a prova de tristeza ou afeto. Também as pessoas de uma sala de aula atravessam-nos a alma, gostemos ou não, deixemos ou não. É sempre uma invasão. Uma invasão de mão dupla, mas ainda assim uma invasão.

Como o pedacinho do mundo que é, a sala de aula é feita de gente, ideias e sentimentos. E nenhum desses é pra gente fraca de espírito. Gente, ideias e sentimentos é coisa séria e complexa. Exige atenção, um pouco de paciência e muito de amor.  É tudo vivo e mutante. As gentes, as ideias e os sentimentos são cuidadosamente construídos nos detalhes do dia-a-dia, em cada palavra que se ouve, em cada troca de sorrisos e em cada frase escrita na lousa. A gente muda quando olha no olho do outro, e o outro pode ter 7, 14, 30, 55 anos. É tudo vivo e mutante: nós, os professores adultos graduados vividos, e eles, em ebulição. Há sempre um infinito a percorrer.

Meus alunos tem entre 10 e 15 anos. Juntos, preparamos uma exposição fotográfica sobre o olhar deles para o mundo e as coisas que os cercam. A minha supervisão se limitou a receber as fotos, imprimi-las e ajudar na organização da exposição. Partiu deles, cada uma das ideias de como fotografar e de em que focar.

Minha constatação: eles não param nunca de me surpreender, exatamente porque todo dia me mostram um jeito diferente de olhar as mesmas coisas.

Abaixo exponho algumas fotografias que recebi. =)

 

 

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