.a educação nossa de cada dia.

Fim de férias. Recomeço de ano letivo. Novos alunos. Novos colegas professores. Outros pais. Velhos comentários. Meu filho não tem jeito. A educação vai salvar o Brasil. Retenção or not retenção? E a verdade acaba por nos escapar das mãos: a educação não se faz somente na escola.

Discussões recentes sobre a reforma do Ensino Médio nos fizeram pensar sobre Sociologia e Filosofia na escola. E até sobre as velhas e boas conhecidas: História e Geografia. Precisa? Pra quê? Tem ou não tem que falar de gênero na escola? E de política? E de preconceito? Religião? Racismo? Onde é que fica o conteúdo?

Todas as discussões são pertinentes desde que a gente não se esqueça (nunca se esqueça!) que educação não se faz só na escola. E claro que isso inclui o “por favor, obrigada, com licença” que se aprende em casa. Mas inclui também os exemplos midiáticos do “compre isso e aquilo”, “ouça aquilo e isso”, “faça, coma, dance, escute, olhe, critique, esconda-se, odeie”. Inclui até os exemplos “distantes” de todo dia: o cara que não para na faixa de pedestres, a moça que joga papel de bala no chão, o empurra-empurra na entrada da porta do trem. Por esse ângulo, a gente percebe que a violência também vai educar, se não houver quem mostre diferente. Tudo é exemplo. Tudo é educação.

Não nos esqueçamos: a escola reflete a sociedade. Não o contrário. Os professores são pessoas de esquerda e de direita, mulheres e homens, héteros ou não, cristãos e não-cristãos, machistas, racistas, que ouvem samba, rock, reggae e funk. Os professores, os diretores, coordenadores, a equipe escolar inteira e os pais dos alunos são essas pessoas que a gente encontra na rua todo dia, com formação universitária e sem, de universidade boa e de universidade ruim, gente que não sabe ler, gente que sabe ler, mas não interpreta texto muito bem, gente que já assediou ou já foi assediada, que tem poupança no banco e não tem, que gosta de viajar e que não tem dinheiro pra isso. Tem quem gosta de praça, parque e rua, e quem prefira televisão e cinema. A escola carrega em si um monte de seres humanos de todos os jeitos, representantes de todas as tribos. Todos os adultos que constroem a escola são pessoas, antes de tudo, como as que cruzam nosso caminho diariamente. E, ó, por experiência própria: tem gente maravilhosa e tem gente não tão maravilhosa assim.

E os ocupantes das carteiras e cadeiras em fileiras na sala de aula também são pessoas retiradas dessa mesma sociedade tão diversa e tão doente. São pessoas em formação, que dependem muito da Matemática e Português, claro, mas que dependem muito mais de uma formação humana capaz de fazê-los ir em frente apesar das mazelas de sua vida sem prejudicar o outro, sem destruir o entorno.

Não é a toa que a convivência escolar é tão difícil. Não é assim também fora da escola?

Colocar toda responsabilidade da salvação da humanidade na escola é, não somente uma utopia difícil de alcançar, mas uma fantasia impossível. Porque educar vai muito além de fazer contas e ler rótulos. Isso, acredite, a escola já alcança em grande porcentagem. Prova disso é a considerável diminuição do analfabetismo nos últimos anos. Mas acontece que educação vai além, e inclui tudo, todos, diariamente. Cada exemplo conta. Cada possibilidade conta. Cada oportunidade, cada cena, cada acesso.

A educação é a aplicação dos métodos próprios para assegurar a formação e o desenvolvimento físico, intelectual e moral de um ser humano, e inclui sim o conjunto de métodos de pedagogia, didática e ensino, mas envolve também  conhecimento e observação dos costumes da vida social; civilidade, delicadeza, polidez, cortesia. E muito mais.

Por isso, a Filosofia, a Sociologia, a História e a Geografia são essenciais. Tanto ou mais que a Matemática e o Português. É indiscutível. E a pauta da educação se estende a tudo que nos cerca e cerca nossos jovens: alimentação, cultura e lazer, os espaços públicos, o respeito à diversidade e a forma como se faz política. Tudo que fará parte da vida deles deve ser visto, aprendido e discutido de algum modo, na escola e fora dela: relacionamentos humanos, inclusive. sem desconsiderar quem eles já são, é preciso oferecer outras boas alternativas de ser.

Educação inclui disciplina, preparo, prática, humanização, autoestima, saber e sonho. Inclui investir em quem somos e no que deixamos pro mundo, em forma de legado material e exemplo. Estamos todos em construção. Os alunos da escola ainda mais. Um professor pode fazer muito por uma criança ou um adolescente. Mas enquanto não formos todos, em maioria social, bons educadores, a escola não será suficiente.

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