.11 livros de poesia de 9 autores contemporâneos brasileiros.

A poesia serve pra quem gosta de gastar tempo com segredos, quebra-cabeças e labirintos. Carlos Drummond de Andrade, Manoel de Barros, Paulo Leminski e Manuel Bandeira são desses que já passaram por aqui e não dá pra deixar de ler (um dia eu digo o porquê), mas existe também uma porção de escritores  contemporâneos jovens  capazes de surpreender. Essa busca por coisas novas me colocou em contato com muita coisa bacana!

Taí uma pequena lista que adorei fazer e compartilho com o bônus de um poema de cada autor pra degustar…

Da Arte das armadilhas, de Ana Martins Marques (MG).

 Lado a lado 

d’après Anna Akhmátova

Andamos juntos
lado a lado
mas sem nos tocar
os passos repetiam
os círculos
do jardim público
as coisas nas vitrines
as coisas que dissemos
naviforme
a lua
por cima
tantas vezes
ensaiamos a partida
mas nunca fomos bons
de despedida

Rilke Shake e Um útero é do tamanho de  punho, de Angélica Freitas (RS).

NÃO adianta
chegar na porta
e ordenar
abra
öffnen
open
é preciso
girar a chave
e mais
é preciso saber
qual chave
ou então
esbarrar na dureza
de certos materiais
mogno pinho
cedro ou lâmina
de qualquer madeira
conhecer a chave
ou intuir para que
lado gira
tantos têm
tão pouca paciência

As Coisas, de Arnaldo Antunes (SP).

A vista daqui é linda.
Ainda. Que não seja.
Linda para outra. Vista
que a. Avista. Daqui é
linda. Se não for vista a
vista. Daqui ainda é.
Linda. Ainda que não
seja. Vista ainda. Que
não se veja. Talvez assim
seja. Mais linda. Ainda.

Se lá no sol, de Elisa Andrade Buzzo (SP).

Renascimento
Criei-me santa
mas sou perversa,
galho de mil pontas.

Para Ninar nosso naufrágio, de Fabiano Calixto (PE).

Rock in Rio, 1985
a vida pinga um colírio
no olho da gente 
e vai embora

Ligue os pontos, de Gregório Duvivier (RJ).

querer tudo é não querer
nada é perceber que nada
é pior que tudo e qualquer
coisa é melhor que nada
é melhor do que não querer
tudo é querer uma coisa só
pois para ser feliz é preciso
querer uma coisa só e saber
deitar ao lado dela – quieto.

Lance de dardos, de Iracema Machado (RN).

Dandara
Eu só acreditava em Drummond:
O amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não creditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos.

Encontro às cegas e 20 Poemas para seu Walkman, de Marília Garcia (RJ).

ouvi dizer sem palavras
tenho frustrações na vida
e esta é apenas uma delas.
nessas horas sei que o mar morto me diz muito mais
do que os prováveis relacionamentos com outrem
— falácias amorosas
e os orgãos internos gemem com
os cem primeiros quilômetros

Sístole, de Monica de Aquino (MG).

Lagos
os olhos do afogado —
já não retém o acaso
o vidro baço
da dúvida.
Trégua túrgida, réstia
sem o espectro da estátua
que confere ao fim
o seu aspecto de pedra.
Rasgo
desde a véspera.
E quanto mais ontem
o corpo, mais lago
(e superfície).
A pele não espera —
dissolve-se —
e não se sabe
o que água, o que carne, 
o que margem.
O morto
embriaga-se.

 

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