.toda aula.

Me deixa explorar esse instante. O detalhe desse sorriso infantil que ainda não sabe o que a vida é. Esse caminhar duro que tenta a leveza apesar do passado. Essas tolices que se cruzam nos corredores gargalhando. O avesso. O correto e discreto que sorri pra mim. Me deixa vasculhar escombros procurando flores e escorpiões. Embaixo das mesas tão semelhantes umas às outras. Os azulejos minúsculos que descascam. O medo e o caos. Me deixa examinar essa lembrança de um tempo em que eu me parecia com eles. Essa lembrança bonita. Dolorosa, feliz. Pesquisar os livros que dizem tudo e os que não dizem. Prolixos. De capa dura. Os coloridos que enchem os olhos. Me deixa analisar a alma deste e daquele. Esse precioso momento em que tudo é simples. O bilhete escrito à mão, como deve ser. O carinho em forma de abraço, e toda essa nossa vontade de gritar. As cópias, as tentativas e o medo de errar. Me deixa, principalmente, observar as paixões. Fugazes, de um jeito perfeito. Alegres, vorazes, primeiras, aprendizes. Me deixa ver de perto o que me acelera o coração todo dia. As batidas, os gritos, a correria. Ele. Todas as estrelas desse céu estupendo. Nuvens cinzentas de chuva que pesam. Me deixa olhar com calma essa coragem que me deu de repente. Essa outra mulher que me surgiu enquanto eu subia pro segundo andar…

Colagem e ilustração de Mariana San Martin.

.o voo.

Alma se prepara pra voar. Acende tochas pra clarear o caminho da decolagem. Fogo. Queima as pontas dos dedos. E atiça as ideias. Toma impulso. Corre. Salta. Enquanto sobe, toma fôlego. Quase não sente entrar o ar. Excitação. Desejo por chegar mais alto. A boca seca. Foge o controle. Os olhos querem ficar abertos, mas fecham com a força do vento que atinge. A agonia que antecede o planar. Tudo se move. Vibra. Treme. Goza. Até o silêncio. A calmaria que preceder o pouso. Um respiro longo numa vida breve. Peito cheio. Alma leve. E volta a caminhar…

.peças.

Não sei se cabe dividir
Que minhas partes são muitas
Tamanhos diversos
Arestas pontiagudas
Mínimos pedaços
Feitos para se perderem
Entre os acúmulos da vida

               Ilustração de Fernando Cobelo (?)

Não sei se vale repartir
As peças
que empilho cuidadosamente
Para fazer bonito ao olhar alheio
E as cartas
Que nem sempre boto na mesa
Para poupar-me dos questionamentos frívolos

Pro caso de haver espaço vago
Nessa sua concepção de relação
No seu olhar e permitir
Pode ser que caiba
Pode ser que valha
Partilhar a coisa toda que sou
Quando inteira ou não

Incompleta e fragmentada
Como subterfúgio
Para deixar em quem passa
Uma fração de qualquer coisa que seja
Em forma de mágoa, riso ou lembrança
Que marca sem intenção de eternizar
E procura somente outros jeitos de compor

Quem olha de um ângulo qualquer
Nunca verá o todo que sou
E mesmo caminhando ao redor
Será incapaz de saber exatamente
Quem fui ou serei
Mas verá a versão real
Inacabada, em construção

.o primeiro do agora em diante.

Imagem de Lisa Risalskaya

Hoje voltei a escrever.

Na verdade, há dias ensaios passeiam por minha mente. Outros temas. Temas meus. Segredos inteiros, recontos internos. Novidade: eu olhando com calma e cuidado para mim mesma e meus pensamentos – bobos, belos, profundos.

Fazia tempo que não parava pra reparar no reflexo. Fazia tempo, mas nunca deixei de ver de relance, para não esquecer de quem sou. Talvez por isso fui capaz de, agora, voltar. Sou insistente.

As palavras tão desconexas. Eu sei. Perdi a destreza. Mas na liberdade, tô caçando novos caminhos. Exatamente como na vida. Um outro jeito de enxergar o tempo, a solidão, o sono, os espaços. Tô caçando novos caminhos…

Nesse ínterim, encontrei essas palavras. De que sou eu mesma, mesmo tendo me tornado outra. Voltando a usar as palavras como estrada.

Os temas se enrolaram na minha cabeça e eu pensei reparti-los aos poucos. Mas não pude. Porque tinha que me permitir começar no rompante de primeira passada larga. Como na vida. Um processo imenso de redescobrir, mais forte, sabendo, como nunca, exatamente pra que lado quero ir. O respiro e o impulso de abrir a porta e sair.

Um pouco de ausência tem disso: nos dá o misto esquisito de medo e coragem. Não sei. Mas hoje voltei a escrever…

.meninas feministas.

Dia 8 de março foi o Dia da Mulher, mas todo dia é dia de a gente pensar sobre o que é possível fazer para minimizar os danos da nossa sociedade machista e começar a construir uma sociedade com mais igualdade.

Nesse post, quero dividir 3 livros incríveis para pais, professores, crianças e adolescentes. Os três são escritos e/ou organizados e ilustrados por mulheres, o que já é maravilhoso por si só.

O primeiro livro é da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, e chama-se Para educar crianças feministas.

Escrito em forma de correspondência, sua leitura é leve e rápida, mas promove uma série de boas reflexões sobre nossas ações do cotidiano. Fala do exemplo, de autoestima e de criticidade. Deveria ser leitura obrigatória para toda professora e mãe de meninas.