.todos os dias.

A vida nos desafia. Mais ainda quando a gente está desatento. Um minuto de distração, e quando paramos pra reparar, tudo mudou de novo. Porque a vida não gosta de inércia. Prefere nos pôr a sacudir. Alvoroçar a ordem das coisas e estremecer nossas estruturas pessoais.  Quanto mais a gente finge ter controle, mais a vida altera o mundo pra que a gente não se acomode. Se a gente olhar bem de perto, talvez não haja um dia sequer em que não sejamos provocados pela vida, ou do lado de dentro ou do lado de fora. Porque coisas grandes e pequenas passam por nós, e toda espécie de gente, e todo tipo de experiência e sentimento e pensamento. A vida, definitivamente, não é algo que fica a nos observar apenas, ela nos chama pra peleja, nos incita a ser melhores, e nos empurra a caminhar. Não fosse isso, não faríamos casas, nem filhos, não existiram foguetes, nem vinho, nem discos de vinil. Não fosse a vida nos afrontando, as paixões não seriam assim tão arrebatadoras, as raivas não seriam tão destruidoras e as amizades não se fariam tão necessárias. Tudo que dói é a vida nos chamando pro combate. Tudo que nos faz rir é a vida nos dizendo que valeu a pena recomeçar. E sempre valerá.

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.as outras.

“Nenhum homem é uma ilha isolada”, disse John Donne. Nós também, mulheres, não somos capazes de sobreviver sem que nos cerquemos de outras partículas de terra firme.

Desde cedo a gente aprende a competição, aprende a disputa, aprende os padrões a serem seguidos, as normas, as regras que nos afastam umas das outras, e da nossa própria liberdade de ser e de pensar. E sozinhas, nós carregamos o peso de ser mulher nesse mundo (ainda) dos homens, machista e caótico, com o adendo de um capitalismo massacrante. Sozinhas.

Não demora para que a gente perceba que para sobreviver é preciso abdicar da fragilidade que nos é estereotipada, para nos munir de uma força e coragem que se misturam a sobrecarga e sacrifício. Porque é nossa a responsabilidade de manter casamentos, de criar filhos de bem, de produzir perfeitamente e ainda estar bela e sorrir.

Não que esse mundo seja descomplicado e dócil para bons homens, mas cada mulher carrega um fardo a mais a que acabamos por nos acostumar. O medo, a sólida resiliência, o altruísmo inabalável.

Seguimos exemplos de mulheres maravilhosas que, apesar disso, despiram-se de vaidade, abriram mão de liberdade e renunciaram de si mesmas e do respeito que lhes era devido. Mulheres que viveram à sombra de homens muito menores de espírito e capacidade que elas. Que fizeram muito menos, que foram muito menos. Menores, pra não dizer pequenos. Homens pequenos que carregaram mérito de terem como suporte mulheres muito talentosas e sagazes, embora assustadas e sozinhas.

(Não me canso de ouvir, agora que sou mãe, história de outras mães de outras gerações que tiveram seus corpos violados e machucados, e que não tiveram em quem se apoiar. Que viveram ao lado de homens que exigiam almoço ao meio-dia e que foram incapazes de trocar uma fralda sequer).

Temos hoje, a obrigação de sermos diferentes, embora olhando-as como preciosos exemplos de valentia e fonte de  valioso conhecimento.

A verdadeira bravura não está em dar conta de tudo que nos é imposto. A nossa força real se molda em sabermo-nos mais resistentes juntas. A nossa astúcia pode se achar na vivência da mulher ao lado. Nossa direção e foco podem estar na outra que foi na frente iluminando caminhos. Nossa energia, habilidade e sustento podem ser encontradas na mana que se faz presente. A gente precisa, a gente merece, a gente deve ter abraço que sirva de abrigo, olhar que seja esteio e palavra como suporte seguro. A gente também pode pedir socorro. Não é preciso ser firme e implacável o tempo todo. A gente também pode errar e ficar despenteada um mês inteiro.

Onde uma é falha, a outra pode ser preenchimento. E o que nos transborda pode acabar por ocupar espaços vazios de outras mulheres também. Rede de apoio para que a queda apenas assuste sem que nos quebre definitivamente. A gente precisa e merece ter.

Juntas, a gente se faz continente, donas da própria história.


Obrigada a todas que me ajudaram (e ajudam) a sobreviver.

O trabalho de um professor de escola pública consiste em ensinar e cuidar de (em média) 30 crianças (as vezes muito mais e as vezes um pouco menos) por período. Crianças cheias de questões, de defasagem e de carência.

O professor tbm se formou na universidade, leu livros e tirou notas, que nunca o ensinaram como seria estar dentro de uma sala de aula, mas que deram um trabalho danado – como imagino ser a maioria dos cursos universitários.

Além disso, o professor tem que, no decorrer da carreira, aprender a se virar na resolução de conflitos, na falta de recursos físicos da escola e nos dramas mais surreais que uma sociedade cheia de violência e descaso pode trazer pra dentro da escola.

Somado a isso tudo, o professor é cobrado a ter amor pelo que faz. Mesmo tendo que, em muitos momentos, lidar com gestões injustas ou incapazes, pais completamente ausentes e alunos desinteressados.

Apesar de tudo isso, eu conheço professores maravilhosos, que dispensam um monte de tempo da sua vida fora da unidade escolar para preparar atividades bacanas, propor passeios educativos, buscar informação e ajuda pra seus alunos. Eu conheço professores ruins também, mas é como eu sempre digo: um professor bom vale por 3 ruins (que não são maioria, eu garanto).

A gente gasta tempo, dinheiro e sentimento dentro da sala de aula e, algumas vezes, fora dela tbm.

Por isso, acho tão surreal que quase todo ano, a gente tenha que brigar e tentar convencer a população e o governo de que nossas lutas por ajustes salariais e mudanças estruturais são justas e necessárias.

E sim, professor concursado até que não ganha tão mal comparado à população brasileira, mas ta longe de ganhar o que merece pelo que faz.

Só pra constar: o auxílio moradia dos juízes tem mais altos valores do que os salários de um monte de professores da rede. Eu não desmereço o trabalho deles, embora ache seu salário e benefícios abusivos. E por isso, não aceito que desmereçam o meu trabalho, e questionem o meu salário e a minha (distante) aposentadoria.

Eu realmente acho que as pessoas deviam conversar mais. Não aquelas superficialidades sobre o trabalho, o tempo ou o que comer no jantar. Nem sobre política, religião e futebol – embora essas coisas devam ter tbm um lugar importante nos nossos dias, claro.

Mas eu quero dizer: conversar de verdade, sobre pra onde caminha a humanidade, a nossa própria humanidade, sobre o mundo e nossos encaixes nele, sobre os sentimentos, as coisas da vida, as dúvidas.

Desbravar mesmo as ideias do outro, tentar ver outros ângulos das mudanças pelas quais passamos e passam as coisas ao nosso redor. Gastar tempo com o outro e consigo, olhando nos olhos de quem está na nossa frente e pra dentro de nós mesmos.

Temos tanto pra trocar, pra entender, pra aprender, desmistificar…

Não são raras as vezes em que uma conversa real e verdadeira com alguém sobre uma questão que não é minha acaba por revelar algo extremamente precioso sobre mim ou para mim.

As palavras têm um poder danado. Verbalizar e ouvir é muito necessário.

E sobre tudo isso, eu só posso dizer:

Obrigada, amigos, por todo tempo de profundezas dividido comigo.

.lição feminina diária.

Agonia que dá
ter casa, filho e companheiro pra cuidá
Trabalho pra ajeitá
Tarefas pra pensá…

A gente passa uma parte da vida
Aprendendo a andá e falá
E a outra a calá e cuidá.

Zela pela comida a prepará
Pelo primor do próprio lar
Pela aparência própria que o outro deve avaliá.

Ser mulher dá trabalho pra daná
E bem pouco tempo sobra
Pra parar e em si mesma pensá:

Fica engasgado na garganta
O que jamais deveria ficá
E uma alma esmagada
Por não conseguir se encontrá.

Cuidar de si mesma devia ser matéria escolar.

Pra gente aprender a se amar
E aos outros não se compará
O próprio corpo observar
E para além do espelho de bolso enxergá

Dosar o tempo pra ser e estar
Dentro de si mesma em todo e qualquer lugar.

Rir sem medo da gargalhada escapar
Memorizar cada bom jeito de esticar as pernas e relaxar
Sem receio do que os outros vão achar.

Exercitar a peculiar capacidade
de esticar-se inteira e gozar.

Nenhuma palavra verdadeira por pressão sufocá
Todo sentimento necessário expressar
Rede de apoio criar
Com outras mulheres experiências trocar
Ser também feita de arte, poder e voar
A gente também precisa sonhar…

Cuidar do outro não precisa significar de si mesma descuidar.

Antes tarde do que nunca
Que a gente seja mais do que esteio alheio
Que se arme de força e vontade de inspirar
Porque essa vida tem de ter espaço
Pra gente ir além e bailar.

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*Liniers