.mantra.

Amor-próprio é tarefa diária. Projeto pra uma vida inteira. Item de necessidade primária pra quem veio ao mundo sendo mulher. Amor-próprio é liberdade e salvação, mas não vem fácil. Escondido em espelhos treinados para nos despedaçar, soterrado pelas comparações que nos são impostas, sufocado pelos padrões das marcas, das revistas e das novelas. Amor próprio não vem de fábrica. É item extra, caro e raro. Mas indispensável para a construção de uma mente sã e um espírito leve. É escudo contra os que tentam nos diminuir. E fundamento para a conquista de bons relacionamentos. Amor-próprio é sobre aceitação. E é sobre sermos, antes de tudo, fiéis a nós mesmas, ao que queremos, ao que acreditamos e ao que somos, de fato. Amor-próprio é uma força, é um tesouro, é um poder. Não é vaidade superficial. Todo mundo precisa cultivar. Ser para si uma companhia suficiente. Doar-se aos outros sem negligenciar as próprias necessidades. Estima apesar das marcas, apesar das rugas, sardas e cicatrizes. É também uma espécie de coragem. Todo mundo precisa ter afeto por si. Amor-próprio é o princípio de um caminho para evolução. É grito. É dança. É revolução. É preciso aprender: somos lindas como somos.

.dividir.

A gente cresce quando se divide. Pente, carona, livro. Canção, jantar, lembrança. A conta, o ombro, um lar. Desejo e sonho. O riso, o drink, a dor. Notícia e ideia. Quanto mais doamos tempo, maiores ficamos. Amor, afeto, alegria. Palavra verdadeira e bonita. Aprendizado e dom. Quanto mais a gente partilha o que há de bom, mais alto alcançamos. Cresce o tamanho da alma, agiganta-se o coração. Escudo de proteção contra energia ruim também se expande. Quanto mais a gente compartilha o que há de bom em nós, mais forte ficamos, mais sorte ganhamos. Não sejamos mesquinhos, onde sobra qualidade e afeição, sempre cabe mais um dentro do abraço. E a gente cresce, para alcançar onde as mãos sozinhas não conseguem chegar.

Ilustração de Minji Moon.

.enquanto me olho no espelho.

Todos os encontros que tive me trouxeram até aqui. Os bons e os ruins, os leves e os agoniados. Todos os abraços que dei, todos os amores que vivi. As noites mal dormidas e as manhãs em que acordei em camas que não eram minhas. As horas gastas com conversa boa. O tempo de aconchego no colo de minha mãe. Meus irmãos, meus avós, meus primos. Tudo que fiz, tudo que preferi não fazer, onde ousei e onde temi. Tudo isso me trouxe até aqui. As vezes em que abri o coração, as outras, em que calei um sentimento qualquer. Foram os dias em que cai e me levantei, foram os dias em que simplesmente caminhei que me fizeram ser quem sou. O filho que tive. Os gostos que provei. Os livros que li. Até quem deixei pra trás e tão mais quem me deixou ir. As mudanças que assisti, as transformações que eu quis pra mim. Os amigos com quem dancei, viajei, experimentei, fui inteira. Todo lar que chamei de meu e toda casa que foi feita em mim. As escolhas que me couberam e os empurrões dos quais não fugi. Foi cada momento passado, foi todo sentimento intensamente vivido. As lembranças que guardo com cuidado e as saudades que carrego onde vou é que me fazem ser quem sou. Não sou feita só de sangue e carne, nem aceito sem questionar o dito pelas estrelas. É meu olhar e o caminhar que me impulsionam. Todo dia estou nova, e todo dia sigo em frente. Ora dizendo não, ora gritando sim. O que me define não me limita. E agora que sou tão outra sei ainda mais de mim.

Ilustração de Henn Kim

.o sono dele.

Ele demora a adormecer. É muita vida pra viver. Só cede quando o cansaço vence, e é hora de crescer um pouco mais. Pequeno corpo em repouso respira calmo e sereno, como se esse mundo fosse todo feito pra ele. Ele está só começando, e a cada amanhecer algo é novo aos seus olhos. A tranquilidade intervalada é de instinto, e por afeto e sustento. Não o culpo. Ele sabe que para sobreviver é preciso abrir bem os olhos, e as vezes gritar bem alto. Eu abraço e reparo antes de descansar, porque sei que nenhum dia será como o anterior. Ele aqui, eu ao lado, vai passar. Nós dois nesse tempo, desse modo, no silêncio e no sossego desse sono de bebê vai passar. São duros meus despertares. Mais duro ainda é saber que vai passar.

Enquanto ele dorme, sonho.

Ilustração de Carolina Buzio

.tempo, tempo, mano “véio”.

Faço as pazes com o tempo, com a duração relativa das coisas, com a ideia de passado, futuro e presente. O presente como um presente. Já. A continuidade. Período determinado entre uma coisa e outra. Durante. A duração de tudo. De uma partida de futebol, um jogo qualquer, uma corrida que atropela os segundos. Estações, meses, horas. Substantivo masculino, as vezes arrastado, as vezes veloz. Sempre intangível, sempre imperativo. Um certo momento que se distingue de outros. Que passa. Que passa . Que passa. Faça chuva ou faça sol. É tempo. Condição meteorológica. E passa. Período específico, segundo quem fala, de quem se fala ou sobre quem se fala. Categoria verbal que indica o momento em que se dá o fato expresso pelo verbo. O quando. Ontem, amanhã. Tempo é vento. Tempo é tempestade. Faço as pazes com o tempo, e as águas que leva e traz. Gentes, rugas, saudades. O ritmo das coisas. Unidade abstrata de medida da música. Acelera, pulsa, para. É preciso ouvir. É preciso sentir. Tempo. Etapa, prazo, era. Fase, ocasião, vez. Ciclo. Ouve. Tudo é tempo. Nem sempre se pode medir. Sente. A gente só tem o agora.

(Ilustração de Andrea de Santis)