.espelho.

Nunca esteve tão a vontade com os seus desacertos externos. Ainda se debate com a incapacidade de mudar alguns traços da personalidade e algumas limitações do que é. Mas nunca, nunca mesmo, nestes tantos anos de vida, esteve tão a vontade com a largura do sorriso torto e o diâmetro das canelas. Ainda não consegue enxergar beleza em certos detalhes, no entanto não lhe incomoda a nudez. Há cachos, pelos, cicatrizes e ranhuras. De uns gosta mais, de outros menos, mas a todos reconhece como seus. Vê defeitos e aprecia assimetrias. É poético que um dia, não como num estalar de dedos, tenha passado por cima de tudo o que é imposição midiática e cultural para olhar-se como mulher real. Já não sente o menor constrangimento diante de si mesma. Poderíamos chamar isso de amor próprio, mas seria um equívoco. O nome disso é liberdade.

Da artista Flora Borsi. Projeto “The Real Life Models”. http://www.behance.net/yayuniversal

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