.ensimesmada.

Um dia me acho. Me encontro. Me pego. E grudo em mim pra nunca mais largar. Me olho tanto, até saber cada pinta que tenho. Frente ao espelho vou reparar cada curva, cada ossinho protuberante. Cada pelo, poro, pedaço de pele marcada. Um dia, ao me encontrar, começo um diário, com a rotina e os segredos de quem eu for. Letras e letras traduzindo os amores, os amigos, e os delizes da minha vida. Um diário pra começar a contar o que eu souber de mim: os dilemas, os dramas, as viagens, as saudades. De tanto observar (-me), saberei identificar cada manifestação: vou até saber os risos, de cor e salteado, os de deboche, de alegria, de raiva, de paixão. Eu imagino que deva ter um riso de paixão também. E não posso esquecer de notar direitinho isso. E o tipo de homem que vou gostar. Ou de mulher. Ou de gente, simplesmente. E sobre o sexo: quero saber tudo. E sobre unhas também. Unhas dizem muito, sempre. E as mãos e os pés. Precisarei de um grande caderno. Pra anotar o que gosto de ouvir: rock, samba, jazz ou silêncio. E o que gosto de ler. E todos os outros deliciosos interesses da vida: literatura, cinema, dança de salão, coleção de moedas antigas, artes plásticas, esportes. Natação, quem sabe. Futebol, talvez. Saias longas, micro saia, jeans. Brincos grandes, ou tão pequenos… Piercing, tatuagem, escarificação. Não não. Será? Que deus terei? Terei um deus? Muitos amigos, poucos, um só, nenhum. Chocólatra, ninfomaníaca, depressiva, bipolar. Com foco ou sem. Delicada, ou não. Festeira, quem sabe. Vodka com coca, cerveja, vinho ou sucos naturais. Pavor de barata, de altura, de ficar sozinha.  Ai, quando eu me encontrar… Quero me conhecer: “oi, tudo bem? como é que vai? de onde você é? o que faz da vida? o que quer da vida? aonde vai nos fins de semana? sabe dançar tango? prefere praia ou montanha? tem medo de escuro? assiste novela? quer ter filhos? anda de patins? come batata frita?”. Os vícios, as manias, as maneiras de relaxar. As cores prediletas. O jeito de dormir. Um dia me deparo comigo. Rosto a rosto, de frente, e vejo direitinho quem sou, e nunca mais me perco…
Enquanto isso, sem saber de mim… Fico aqui, empapussada deste medo de, sem perceber, um dia desses, não cuidar de mim, não notar onde é que estou, e me esquecer por aí.
Aquivo: dezembro/2009

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