.enquanto me olho no espelho.

Todos os encontros que tive me trouxeram até aqui. Os bons e os ruins, os leves e os agoniados. Todos os abraços que dei, todos os amores que vivi. As noites mal dormidas e as manhãs em que acordei em camas que não eram minhas. As horas gastas com conversa boa. O tempo de aconchego no colo de minha mãe. Meus irmãos, meus avós, meus primos. Tudo que fiz, tudo que preferi não fazer, onde ousei e onde temi. Tudo isso me trouxe até aqui. As vezes em que abri o coração, as outras, em que calei um sentimento qualquer. Foram os dias em que cai e me levantei, foram os dias em que simplesmente caminhei que me fizeram ser quem sou. O filho que tive. Os gostos que provei. Os livros que li. Até quem deixei pra trás e tão mais quem me deixou ir. As mudanças que assisti, as transformações que eu quis pra mim. Os amigos com quem dancei, viajei, experimentei, fui inteira. Todo lar que chamei de meu e toda casa que foi feita em mim. As escolhas que me couberam e os empurrões dos quais não fugi. Foi cada momento passado, foi todo sentimento intensamente vivido. As lembranças que guardo com cuidado e as saudades que carrego onde vou é que me fazem ser quem sou. Não sou feita só de sangue e carne, nem aceito sem questionar o dito pelas estrelas. É meu olhar e o caminhar que me impulsionam. Todo dia estou nova, e todo dia sigo em frente. Ora dizendo não, ora gritando sim. O que me define não me limita. E agora que sou tão outra sei ainda mais de mim.

Ilustração de Henn Kim

.tempo, tempo, mano “véio”.

Faço as pazes com o tempo, com a duração relativa das coisas, com a ideia de passado, futuro e presente. O presente como um presente. Já. A continuidade. Período determinado entre uma coisa e outra. Durante. A duração de tudo. De uma partida de futebol, um jogo qualquer, uma corrida que atropela os segundos. Estações, meses, horas. Substantivo masculino, as vezes arrastado, as vezes veloz. Sempre intangível, sempre imperativo. Um certo momento que se distingue de outros. Que passa. Que passa . Que passa. Faça chuva ou faça sol. É tempo. Condição meteorológica. E passa. Período específico, segundo quem fala, de quem se fala ou sobre quem se fala. Categoria verbal que indica o momento em que se dá o fato expresso pelo verbo. O quando. Ontem, amanhã. Tempo é vento. Tempo é tempestade. Faço as pazes com o tempo, e as águas que leva e traz. Gentes, rugas, saudades. O ritmo das coisas. Unidade abstrata de medida da música. Acelera, pulsa, para. É preciso ouvir. É preciso sentir. Tempo. Etapa, prazo, era. Fase, ocasião, vez. Ciclo. Ouve. Tudo é tempo. Nem sempre se pode medir. Sente. A gente só tem o agora.

(Ilustração de Andrea de Santis)

.todas as coisas sobre as quais não vou escrever.

O susto de descobrir uma gravidez fora dos planos (e a alegria que vem depois). Enjoo e queimação. A graça e o medo de ver a barriga crescer. O sentimento inexplicável de sentir o bebê mexer. A angústia da espera pela chegada natural. Todas as besteiras que a gente ouve no final da gravidez. A vitória da coragem sobre o medo. A alegria de parir e a força, autoestima e poder que a gente ganha com isso. O medo de não se adaptar à nova parte da nossa vida. Baby blues*. A importância de chorar, de conversar e ter rede de apoio*. Como um companheiro não deve ser um ajudante, mas sim um parceiro. Como amamentar é duro no começo. Os novos significados para sono, paz, sossego. A dor de ver um filho doente. A mágica do tetê e colinho. A aventura de botar os pés pra fora de casa. O reconhecimento das pequenas conquistas diárias. A aceitação das pausas e do tempo “não produtivo”. A saudade da “dor” do parto. A lembrança gostosa do barrigão. O drama das vacinas. Como executar tarefas cotidianas com uma mão só. O novo olhar para todas as boas mães do mundo e, especialmente, pra nossa própria. A gratidão. O amor.

Quase 4 meses de maternagem. Quase 4 meses do dia em que tudo mudou. Quase 4 meses da experiência mais insana dessa vida.

Seguimos por aqui somando sensações sobre as quais não saberei (ou poderei) escrever.

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* Na verdade, sobre Baby Blues eu escrevi aqui. E sobre “rede de apoio”, aqui.

.joão.

Partiu de mim. Rebento. E logo de cara, me olhou. Abocanhou meu seio como se não quisesse me deixar. Como se dissesse: fica calma que eu te guio. Meu coração cresceu na mesma medida que a barriga que o abrigou por 40 semanas e 1 dia. Lindo. Cria. Meu. Chegou no seu tempo. Desbravou minhas entranhas com coragem e precisão. Partiu de mim, sem me escapar por completo. Mora agora no meu abraço, no meu colo, bem debaixo da minha asa. Cheiro, cor, riso. Do parto, parte. A parte mais importante de tudo que já vivi, fui, senti. Filho. Filho. As vezes nem acredito. Me fez mais forte, mais humana e mais feliz. Obrigada, João. Vamos juntos.

.deserto.

Estar só tem suas dores e delícias. Uma casa vazia pede som, um passeio sem companhia possibilita pensamentos necessários, um momento de abandono traz valor aos reencontros. Mas solidão assusta, porque é mais que isso. Há tanta gente cercada de gente se sentindo desamparada, e há tanta gente caminhando sozinha que se sente abraçada pelo mundo. Essa solidão sólida, do ambiente, do que nos cerca, da falta da coisa, da falta da pessoa, ou das, do quarto fechado, sem nada, não assusta tanto quanto a solidão que mora dentro e persiste. É preciso separar bem. Solidão mesmo é a da sensação, e não do estar sendo. Há uma solidão que mexe dentro, e profundamente, ainda que se esteja cercado de bons amigos, dias de sol, pai, mãe, irmãos e filhos. A solidão real, que come pedaços da alma,  é algo que passeia pelas veias, neurônios e músculos. É o extremo da sensação de que estamos todos à deriva, sob o descontrole do acaso, sob as mutações inevitáveis das pessoas, e a efemeridade da existência. É o sútil entendimento do óbvio: há necessidade urgente e constante de desapegar-se. E isso não precisa ser de todo ruim. Chega até a ser
um bom exercício da própria individualidade. Do estar confortável consigo mesmo – bem primordial para o bem estar das relações, inclusive.  Lagrimar, espernear, entristecer é parte do nosso caminho. Aprende-se sobreviver aos desertos transitivos. Pede-se que estejamos atentos ao processo, pra enxergar os exageros e as patologias. Depois da solidão dolorida, em que a alma se desfaz, um reconhecimento do vazio externo, acaba por preencher o que há dentro com coisas nossas. Tornar-se aos poucos, uma boa companhia pra si mesmo tem o seu valor nessa constante realidade em que as coisas se quebram, as pessoas se vão, a juventude é fugaz. Ser assim, tão si em si mesmo, tem que bastar. É só na solidão que se encontra, é só na solidão que se levanta. E só se encontrando pode-se realmente encontrar alguém. Mais que isso: a solidão é individual e singular como poucas coisas são. E serve bem como impulso para as escolhas das quais não podemos fugir, de quem somos, quem queremos ser, pra onde estamos indo e com quem.