.pé-de-meia.

A gente precisa mesmo. Tá dito. Roupa, canto, comida se paga com vintém. Fazer pé de meia pra uma velhice tranquila, a gente pensa. Quer poupança e investimento. E pro hoje, tanta coisa pra encher os espaços vazios da nossa vida. A gente quer ter, quer garantir. E precisa, diz-se. Prata, moeda, tostão. Um montante salvaguarda e proteção. No pé-de-meia cabe ouro, cabe nota, cabe tudo que sobra de cada pedaço do nosso tempo vendido. Pra uma vida feliz: dinheiro. Para uma existência mais amena: grana. Pro amanhã: economia e trabalho. A gente precisa. Pro dia a dia: trocado. Pras exceções e apertos: bufunfa. Salário suado, a gente aprende a dar valor. Tutu e cobre. A gente torce pra que sobre algum. A gente sabe que precisa guardar. Cuidar bem do que é nosso. Patrimônio, bens, capital. E, enquanto a gente pensa que precisa mesmo, que precisa muito, que precisa mais, precificam tudo ao nosso redor. Pra facilitar um pensamento que já indica que conta bancária é tudo e que tudo se pode comprar. Pagando bem que mal tem? Até água, até terra pra morar, até comida que preste. Até companhia, até sexo, até liberdade. Até certezas, até verdades, até conexões. A gente pensa que precisa. A gente pensa que pode comprar. E confunde o que é vontade com necessidade. Se vender é o que não vale. A gente precisa, tá dito. Certa quantia, alguma importância. Mas não tanto, nem pra tudo. Pé-de-meia também se faz de amor, família e descanso. O que não se compra vale mais. Fortuna em forma de afeto, riqueza que cabe em tardes tranquilas de domingo cercadas de gente preciosa. Tesouro, de fato.


E tem playlist:

.só pra saber.

Tem notícia ruim pra todo gosto e desgosto. Que a gente consome, em que a gente se engasga, onde a gente se afoga. Hábito. Vício. Droga. Todo dia. Todo tempo. Notícia falsa,  notícia velha, desinformação. Que não explicam nada, que não ajudam ninguém. Crueldade em forma de fato, atrocidade com cara de relato. É tóxico. Entorpecem e envenenam. Até que nos acostumemos ao nojo que dá, à raiva que dá, ao medo que dá. Até que cada comunicado feito em rede nacional só sirva mesmo pra dolorir. Soterrando de sujeira e lágrima toda a frágil esperança e energia. De todo horror tem de nascer um movimento, ou calejamos a alma e a vontade. Sendo passivos ao invés de pacíficos. Pra cada mal, nutrirmo-nos de beleza e poesia. Verdade e afeto. Ideia e sentido. Antídotos necessários para que as manchetes não devorem nossa capacidade de mudar o mundo e nossa força pra lutar.

Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar…
– Chico Science e Nação Zumbi

.5° ano C.

meninos pequenos conversam
dividem entre si, os sonhos
suas graças
seu afeto
a gente fica de costas
enchendo a mão de giz
machucando as cutículas
desenhando letras pra ninguém
melhor seria desvendar palavras ditas
distribuir asas ao pensamento
dar sentido ao riso
e rir junto também
amá-los de volta
como só é possível amar quem ainda não cresceu
meninos pequenos ainda têm tempo de achar caminho
ajuda se ouvir com a alma
e olhar nos olhos

Algumas vezes não durmo. Madrugada adentro de olhos fechados e alma desperta. A lua minguante me atravessa. Sinto calor, gosto amargo na boca e saudade. Tomada de cansaço, insisto em caminhar pelas estradas mais longas dentro de mim. Fechando portas e abrindo janelas. Imensidão.  Não quero me perder. De olhos fechados, concentro no caminho que percorro.  Os sons todos me abraçam. Encontro a lembrança mais remota, e deixo que ela se desfaça no ar. As horas vão passando, os pensamentos também. O corpo morno revira-se tomado de necessidade de voar. E voa. Dou por mim de volta ao chão quando já é dia claro, sem saber muito bem se dormi, enfim, ou se alcancei as nuvens.

.motim.

Uma força contrária nos atinge a cabeça.
Muro no meio da nossa estrada.
No que fazemos juntos
ordenados curtos
longas horas de labuta.
Onde se encontra tempo pra ser
pra ver
pra enternecer?
Carteira, registro e ponto.
E o tempo passando bárbaro.
E uma parede se ergue no meio do nosso caminho.
A gente grita.
Pisa forte na avenida.
Levanta estandarte de palavras-guia.
Ninguém vê.
Somos seres abstratos.
Números em folhas brancas de papel.
Contra-cheques e holerites no painel.
Saldo de gastos com pausas de quinze minutos.
Invisíveis necessidades.
Esquecidas almas perdidas
De barrigas quase vazias
Nutridos de fé e migalhas.
Doando de si o máximo
de juventude, força, lucidez e sapiência.
E nos querem velhos franzinos.
Loucos varridos no fim da vida.
E por hoje, nos preferem serenos.
Serenamente calados.
Inaudíveis ao sistema.
Nos querem pacíficos.
Mansos cordeiros de deus.
Quem dera ouvíssemos o que o espírito em revolta berra.
Antes que seja tarde.
Antes que ganhem a guerra.
Sejamos todos:
Insubmissos ao que não se atenta.
Desobedientes ao que está doente.
Inquietos e rebeldes.
Urremos juntos com a força de cem mil feras.
Devolvamos, na mesma medida,
a truculência
o descaso
a rispidez.
Estejamos juntos para além da diária luta.
A vida é curta.
Derrubemos a muralha que se impõe.
Ou morre conosco o pouco que ainda dá sentido.
Que eles morram de medo de um povo destemido.
Banksy