Algumas vezes não durmo. Madrugada adentro de olhos fechados e alma desperta. A lua minguante me atravessa. Sinto calor, gosto amargo na boca e saudade. Tomada de cansaço, insisto em caminhar pelas estradas mais longas dentro de mim. Fechando portas e abrindo janelas. Imensidão.  Não quero me perder. De olhos fechados, concentro no caminho que percorro.  Os sons todos me abraçam. Encontro a lembrança mais remota, e deixo que ela se desfaça no ar. As horas vão passando, os pensamentos também. O corpo morno revira-se tomado de necessidade de voar. E voa. Dou por mim de volta ao chão quando já é dia claro, sem saber muito bem se dormi, enfim, ou se alcancei as nuvens.

.motim.

Uma força contrária nos atinge a cabeça.
Muro no meio da nossa estrada.
No que fazemos juntos
ordenados curtos
longas horas de labuta.
Onde se encontra tempo pra ser
pra ver
pra enternecer?
Carteira, registro e ponto.
E o tempo passando bárbaro.
E uma parede se ergue no meio do nosso caminho.
A gente grita.
Pisa forte na avenida.
Levanta estandarte de palavras-guia.
Ninguém vê.
Somos seres abstratos.
Números em folhas brancas de papel.
Contra-cheques e holerites no painel.
Saldo de gastos com pausas de quinze minutos.
Invisíveis necessidades.
Esquecidas almas perdidas
De barrigas quase vazias
Nutridos de fé e migalhas.
Doando de si o máximo
de juventude, força, lucidez e sapiência.
E nos querem velhos franzinos.
Loucos varridos no fim da vida.
E por hoje, nos preferem serenos.
Serenamente calados.
Inaudíveis ao sistema.
Nos querem pacíficos.
Mansos cordeiros de deus.
Quem dera ouvíssemos o que o espírito em revolta berra.
Antes que seja tarde.
Antes que ganhem a guerra.
Sejamos todos:
Insubmissos ao que não se atenta.
Desobedientes ao que está doente.
Inquietos e rebeldes.
Urremos juntos com a força de cem mil feras.
Devolvamos, na mesma medida,
a truculência
o descaso
a rispidez.
Estejamos juntos para além da diária luta.
A vida é curta.
Derrubemos a muralha que se impõe.
Ou morre conosco o pouco que ainda dá sentido.
Que eles morram de medo de um povo destemido.
Banksy

.carnaval.

Militão dos Santos – Carnaval de Olinda

A gente também precisa de festa. De luta e de festa. De trampo e de festa. E ócio. A gente precisa de som, balanço e cor. Todo dia é dia de ser feliz. Mas a gente precisa extrapolar pra aprender como é que se faz. A gente precisa de diversão, de folia, de fantasia. Ser grande e sem medida. A vida precisa de farra. Caçar motivo, inventar razão. Tamborim e cuíca – precisa. Também tem que ter brincadeira. Pra rir da graça do outro. Pra abraçar o riso que não é nosso. E olhar com olhos sinceros gente que a gente nunca viu. A gente precisa de gente que ocupe as ruas e cante canções. Precisa pular embaixo de sol, se vestir de outros e aproveitar os motivos pra brindar. Liberdade pra ser espalhafatoso e cômico. É festa da carne, dizem. Mas não só. A alma também festeja. E o coração bate acelerado como quem toca o batuque. E combina com o Verão. E segue o bloco. Enfeita a vida da gente. Que também é feita de ócio, e de trampo, e de luta. Porque a vida é curta. Mas não precisa ser pequena.

Playlist de Carnaval <3
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Botemos nosso bloco na rua.

.fartura pra sermos completos.

Copo meio cheio, copo meio vazio.
Corpo meio cheio, corpo meio vazio.
Gente também precisa de recheio.
Densidade e conceito.
Mente sempre cheia, só de vez em quando, vazia.
Alma meio cheia, alma meio vazia.
Pessoas de barriga cheia, pessoas de barriga vazia.
Que toda carência de significado e arrimo seja, deveras, satisfeita.
E que não nos cerquemos de abismos de escuros e nada.
Discursos meio cheios, discursos meio vazios.
Certezas sempre tão cheias de ideias tão sempre vazias.
Todo tempo precisa de esteio.
Toda vida precisa de anseio.
Pra não ficar em cima de muros
Ou de mentiras, no meio.
Essência – pra ser mais que farofa e ego.
Sem eco, sem oco e sem asco.
O mundo já tá bem cheio de vácuo.
E de vazio, já bastam os domingos de março…

.muito pouco ou quase nada.

Todo dia tem história nova. Todo santo dia tem história velha que vai ficando pra trás. Da missa, não se sabe um terço. Não dá mesmo pra saber de tudo. Vai sempre faltar um detalhe.
Tem um provérbio que diz que pra perguntar é preciso saber. Mas sobre o quê? Sobre quem? É impossível entender de todas as coisas do mundo, quiçá de todas as coisas da vida. Sendo assim bem sincero, a gente não sabe patavina.
As vezes tem pelo em ovo, sim senhor. Nem tudo sai no jornal. Aliás, quase nada do que é realmente importante sai. E até provar que focinho de porco não é tomada, quantas cabeças já foram cortadas e ninguém sequer percebeu?
Você sabia que a França ainda estava executando pessoas com uma guilhotina quando o primeiro Star Wars foi lançado, em 1977? Pois é. Nem eu.
A verdade que se faz ver é, muitas vezes, só uma parte, recortada, lapidada, modificada, enfeitada. Isso sim só não vê quem não quer.
Há segredo guardado a sete chaves. Tanto gato vendido por lebre. Nayirah que o diga. Snowden também. As cartas não estão na mesa, e se estão, pode contar que tem rei de copas faltando.
É tanto nó que fica difícil encontrar o fio da meada. Muitas agulhas perdidas em palheiros imensos, enormes. Tem gente que não sabe nem a linha com que cose.
Com bastante atenção, a gente até ouve o galo cantar, mas não sabe onde. De ruído, temos: história pra boi dormir e contos da carochinha.
Difícil mesmo é saber onde pisar ou como se proteger desse sol tapado com a peneira.
A arábia Saudita importa camelos da Austrália. Gary Webb  se suicidou com dois tiros na cabeça. Tem verdade que parece mentira, e mentira fantasiada de verdade. Não importa em que parte do mundo, há máscara pra todo tipo de folião. Não é só no Brasil que tem Carnaval.
Tem ponto cego, claro, mas tem também cascata, lorota e embromation. Alhos por bugalhos. Não vale o quanto pesa.
“Só sei que nada sei”, disse Sócrates – o filósofo e não o jogador – e ele tinha razão. Um monte de livro julgado pela capa. Inverdade virou até sinônimo de mentira. Mas quem é que vai admitir estar redondamente enganado?
Não é a toa que modificaram a frase de Shakespeare em Hamlet para “há mais coisas entre o céu e a Terra do que supõe a vã filosofia”. Faz mais sentido assim.
Em monstros? Acredito,sim. E você?

 Não achei o nome do ilustrador, mas adoraria dar os créditos. Me ajuda?