.opinião dos outros.

A opinião dos outros:
Quem sabe,
As vezes.

O olho atento
e o coração sensível
Determinam o destino
Da palavra
Do voto
Toda tese alheia
Os palpites
Cada pequena teima
E consideração

A opinião dos outros
Fede
Atrapalha as ideias
Cria asas
Forja teia no pensamento
Embaralha
Escoa pelos dedos
Passa rápida
Serve de companhia
Faz volume
Preenche espaços
(principalmente os vazios)
É abraço
Murro
Amarra
Cerca viva
Prisão em domicílio
Embaça a visão
Desanuvia a mente inquieta
Vicia
Soma ao lixo
Escorre ao ralo
Envolve os membros
Dá corda aos medos
Serve ao riso
Piada pronta
Destrói castelos
Ergue muros
Inicia guerras
Perde batalhas
Derruba impulsos
Ambígua
Confunde
Soma receios
Aumenta a vontade
Desafia
Fala por si
Tem o exato tamanho do crédito que recebe.

A opinião dos outros
Importa ou não

Depende

.fado.

No horizonte, a gente enxerga céu, amanheceres, crepúsculos, possibilidades. É pra onde se deve caminhar. Passo depois de passo, alguns tropeços, corridas e tentativas de retorno. A gente sempre acaba indo em frente ou, no máximo, estagna, senta no chão e chora. Pra frente é que se anda, e ainda que o olhar esteja no que passou, não há como voltar atrás. O que nos espera é o porvir, à espera de ser escrito, desenhado, vivido. Por mais que se tracem rotas perfeitas, há miragens, abismos e bifurcações. É preciso estratégia, sim, mas principalmente flexibilidade. Um céu nunca é igual ao outro. Nem as fronteiras. Nem as histórias. E o que há de vir guarda imprecisão. O agora é construção, mas é também surpresa. Acaso ou destino, que seja. Nem tudo é obra de escolhas sensatas, milimetricamente pensadas. As vezes, o amanhã é calcado no imprevisto ou numa mudança súbita não planejada. É quando o horizonte, incerto, se esconde atrás de neblina. Os passos precisam ser mais curtos, firmados no chão, calmos, sem grandes expectativas. E a gente não aprende a esperar pra ver. Quer pra já e não mais tarde. De nada adianta querer. Dá medo não saber o que será. Mas medo é parte da travessia. E é no não saber que se guarda a beleza do reencontro da claridade e da imensidão. Certos encantos só se encontram no depois, feito a sorte de tropeçar em mais um botão pra coleção. É sem aviso. E vai chegar. Deixa vir.

Só o amor é luz.

 

.pé-de-meia.

A gente precisa mesmo. Tá dito. Roupa, canto, comida se paga com vintém. Fazer pé de meia pra uma velhice tranquila, a gente pensa. Quer poupança e investimento. E pro hoje, tanta coisa pra encher os espaços vazios da nossa vida. A gente quer ter, quer garantir. E precisa, diz-se. Prata, moeda, tostão. Um montante salvaguarda e proteção. No pé-de-meia cabe ouro, cabe nota, cabe tudo que sobra de cada pedaço do nosso tempo vendido. Pra uma vida feliz: dinheiro. Para uma existência mais amena: grana. Pro amanhã: economia e trabalho. A gente precisa. Pro dia a dia: trocado. Pras exceções e apertos: bufunfa. Salário suado, a gente aprende a dar valor. Tutu e cobre. A gente torce pra que sobre algum. A gente sabe que precisa guardar. Cuidar bem do que é nosso. Patrimônio, bens, capital. E, enquanto a gente pensa que precisa mesmo, que precisa muito, que precisa mais, precificam tudo ao nosso redor. Pra facilitar um pensamento que já indica que conta bancária é tudo e que tudo se pode comprar. Pagando bem que mal tem? Até água, até terra pra morar, até comida que preste. Até companhia, até sexo, até liberdade. Até certezas, até verdades, até conexões. A gente pensa que precisa. A gente pensa que pode comprar. E confunde o que é vontade com necessidade. Se vender é o que não vale. A gente precisa, tá dito. Certa quantia, alguma importância. Mas não tanto, nem pra tudo. Pé-de-meia também se faz de amor, família e descanso. O que não se compra vale mais. Fortuna em forma de afeto, riqueza que cabe em tardes tranquilas de domingo cercadas de gente preciosa. Tesouro, de fato.


E tem playlist:

.só pra saber.

Tem notícia ruim pra todo gosto e desgosto. Que a gente consome, em que a gente se engasga, onde a gente se afoga. Hábito. Vício. Droga. Todo dia. Todo tempo. Notícia falsa,  notícia velha, desinformação. Que não explicam nada, que não ajudam ninguém. Crueldade em forma de fato, atrocidade com cara de relato. É tóxico. Entorpecem e envenenam. Até que nos acostumemos ao nojo que dá, à raiva que dá, ao medo que dá. Até que cada comunicado feito em rede nacional só sirva mesmo pra dolorir. Soterrando de sujeira e lágrima toda a frágil esperança e energia. De todo horror tem de nascer um movimento, ou calejamos a alma e a vontade. Sendo passivos ao invés de pacíficos. Pra cada mal, nutrirmo-nos de beleza e poesia. Verdade e afeto. Ideia e sentido. Antídotos necessários para que as manchetes não devorem nossa capacidade de mudar o mundo e nossa força pra lutar.

Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar…
– Chico Science e Nação Zumbi

.5° ano C.

meninos pequenos conversam
dividem entre si, os sonhos
suas graças
seu afeto
a gente fica de costas
enchendo a mão de giz
machucando as cutículas
desenhando letras pra ninguém
melhor seria desvendar palavras ditas
distribuir asas ao pensamento
dar sentido ao riso
e rir junto também
amá-los de volta
como só é possível amar quem ainda não cresceu
meninos pequenos ainda têm tempo de achar caminho
ajuda se ouvir com a alma
e olhar nos olhos