.o sono dele.

Ele demora a adormecer. É muita vida pra viver. Só cede quando o cansaço vence, e é hora de crescer um pouco mais. Pequeno corpo em repouso respira calmo e sereno, como se esse mundo fosse todo feito pra ele. Ele está só começando, e a cada amanhecer algo é novo aos seus olhos. A tranquilidade intervalada é de instinto, e por afeto e sustento. Não o culpo. Ele sabe que para sobreviver é preciso abrir bem os olhos, e as vezes gritar bem alto. Eu abraço e reparo antes de descansar, porque sei que nenhum dia será como o anterior. Ele aqui, eu ao lado, vai passar. Nós dois nesse tempo, desse modo, no silêncio e no sossego desse sono de bebê vai passar. São duros meus despertares. Mais duro ainda é saber que vai passar.

Enquanto ele dorme, sonho.

Ilustração de Carolina Buzio

.feliz dia das mães reais.

Mãe é ser humano. Precisa dormir, precisa comer, precisa de afeto. Não sobrevive apenas de olhares e sorrisos de filho, embora esses a alimentem também de certo modo. Mãe não é santa. Erra, esquece, confunde, grita, sente desejo. As vezes quer fugir, de vez em quando precisa estar só. Instinto materno não é unanimidade. A maior parte das vitórias na criação e cuidado dos filhos acontece por tentativa e erro, busca por informação confiável e exemplo de outras mães. Ser mãe é também algo que se aprende. Mãe pode trabalhar fora e gostar disso. Mãe pode ler livros que não sejam infantis, ver filmes que não sejam animações e ouvir canções que não sejam de ninar. Os prazeres de antes de ser mãe não somem depois do parto. Mãe pode querer ainda ter tempo para as coisas que outrora ocupavam seus dias. A vida da mãe não é a vida do filho. A vida da mãe é a vida da mãe, e o filho faz parte dela. Ser mãe muda quem a gente é, mas não a ponto de esquecermos completamente quem fomos. Ser mãe é adaptação e não abdicação. As mães não são todas iguais. As mães não têm sempre razão. As mães não são a prova de cansaço. É forte, mas não é de ferro. Ninguém é. As mãe também são humanas. Sentem medo, tristeza, dor. Têm seus próprios sonhos e necessidade de voar. Não se preenchem apenas de bondade, altruísmo e benevolência. Mãe não é ser mitológico, heroína ou deusa – embora as vezes pareça. Mãe é mulher. Mãe é gente. E para amar desse tanto precisa ser.

.relato de parto.

A espera pela chegada de um filho, na reta final, entre 39 e 42 semanas é cheia de ansiedade. Especialmente quando, como no nosso caso, havia a expectativa de conseguirmos nosso primeiro encontro na Casa de Parto Sapopemba. O atendimento lá só poderia acontecer até as 41 semanas. Depois disso, caminharíamos juntos, eu e ele, para nosso plano B ou C. Mas, claro, a gente queria mesmo era o plano A.

Na noite do dia 5, enquanto eu fazia um escalda pé na sálvia com alecrim senti muitas contrações de treinamento, mas sem muita dor, só desconforto. Vale dizer que eu tomei chá de abacaxi com canela e gengibre por 2 dias, dancei MC Kevinho (Rabiola) todos os dias durante uma semana, e fiz exercícios de agachamento. Porque, como disse, queria muito que meu parto fosse na Casa de Parto, e eu já havia chegado às 40 semanas.

Tentei tudo que pudesse para “acelerar” de forma natural meu trabalho de parto: tomei um shake que me ensinaram na Casa de Parto, comi tâmaras e diminui açúcar… (Não consegui diminuir o carboidrato!). Também conversei com a barriga, tentei concentrar e meditar pra ficar calma e pra meu bebê “chegar chegando”. Ou seja, tinha um objetivo claro.

Nessa noite, fui dormir com cólicas e sentindo mais contrações – dessa vez, um pouco mais doloridas, mas ainda muito parecidas com o que eu já tava sentindo na semana anterior. Só que por volta de umas 2 da madrugada, elas se intensificaram. Acordei meu marido. E aí começamos a marcar os intervalos de uma pra outra. Na regra geral, as contrações do trabalho de parto são ritmadas. O que não aconteceu com as minhas, que se alteravam em 3,5, 7, 8 minutos de uma pra outra, e duravam 50 segundos, 1 minuto, 2. Por não ter perdido tampão e nem ter estourado a bolsa, fiquei com bastante receio de ser alarme falso e achei melhor ficar mais em casa e esperar mais um tempo pra chamar “minha” doula. Não gostaria de chegar na Casa de Parto e ter que voltar, e também, pra mim, não fazia sentido, chamá-la de madrugada pra “nada”.Nenhum texto alternativo automático disponível.

Só que fiquei nessa, das 2 até umas 6 da manhã, e a dor se intensificava. Conversei com a Nathy (doula ♥), que me recomendou um banho pra ver como eu me sentia – eu tinha medo de que o banho interrompesse o trabalho de parto. Mas as palavras dela foram: “Se o TP parar é porque não chegou ainda a hora de o João vir ao mundo!”. Acreditei.

O banho dava uma amenizada, mas as contrações continuavam.

Meu marido, enquanto isso, contava as contrações, fazia massagem, me dava água, frutas e fazia tudo que podia para me deixar mais confortável.

Chamei a Nathy para vir pra minha casa, tomei café da manhã, mas como já havia acontecido durante a madrugada, eu comia e vomitava. Nada parava no meu estômago. Mesmo assim, eu me forçava a comer porque sabia que precisaria de energia.

Quando a Nathy chegou, conversamos um pouco, e ela acompanhou algumas das contrações, ainda não ritmadas. Um dos momentos mais inesquecíveis desse momento em casa foi o de estar em pé apoiada na rede e a Nathy massageando minhas costas e quadril.

Foi exatamente depois disso que resolvemos juntos ir para a Casa de Parto.

A malinha já estava arrumada, mas ainda me lembrei de colocar na bolsa uma base e um batom.

Chamamos um Cabify, avisamos que eu estava em trabalho de parto, mas que ele podia ir com calma que tínhamos tempo. Ele foi maravilhoso. Não só dirigiu com tranquilidade e agilidade, como foi extremamente respeitoso e gentil.  Enquanto isso, eu tentava controlar os gemidos nas contrações para não assustá-lo (risos).

Chegamos na Casa de Parto e fui ser examinada pela Enfermeira Thaís e a auxiliar de enfermagem: cardiotoco do Neném ok, pressão arterial e temperatura da mamãe ok e, por fim, o exame de toque que mostrou que eu estava com 6 cm de dilatação! Ficar 20 minutos deitada para o cardiotoco não foi fácil. Fico imaginando como sobrevivem as mulheres que são obrigadas a ficarem deitadas o tempo todo nas camas de hospital durante seus trabalhos de parto.

Fomos, então, para a sala de parto. Eu, a Nathy (doula) e meu marido. Fui direto pra bola e chuveiro, onde fiquei por bastante tempo. Tirar a roupa na frente deles e da enfermeira me deixou constrangida por uns 10 segundos, acho.

Lá, eu também tentei comer. Lembro de estar na bola e no chuveiro com um copinho de água gelado do lado, mastigando uma bolacha de maisena. Salvadores!

Meu marido ficou comigo o tempo todo, e vez por outro pegava na minha mão, acariciava minhas costas ou reagia aos meus pedidos. Também não imagino como passar por isso sem o apoio de quem a gente ama. O suporte da minha doula – com apoio emocional e massagens foi fundamental. E a presença, força e palavras do meu marido também foram indispensáveis. Sem eles, eu realmente não sei como seria…

As enfermeiras nos deixaram muito a vontade e iam e vinham muito de vez em quando avaliar como estávamos física e emocionalmente.

Trouxeram comida, mas não consegui comer muito e, óbvio, botei tudo pra fora novamente.

Fora do chuveiro, tentei a banqueta e odiei, sentei na poltrona, ajoelhei no chão, nem conseguia olhar para a banheira, e chuveiro continuou sendo minha salvação.

Eu não me lembro direito, mas meu marido disse que as vezes eu falava que “não conseguiria”, e eles diziam que “eu já havia passado a maior parte, metade do caminho”. Lembro da Nathy dizer, não é uma contração a mais, é uma menos pra encontrar o João.

Na sexta anterior, uma amiga, num e-mail me deu uma dica de sempre me preparar para mais 3, e ir em frente. Pensei nela e nas palavras dela o tempo todo. =)

Tive vontade de fazer cocô e vieram me examinar mais uma vez. Durante o exame, a bolsa estourou e saiu o líquido claro. Mais um alívio. Tem o tal do mecônio, que embora não seja exatamente um grande problema, pode acabar por sê-lo.

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Meu corpo inteiro doía. Não é modo de dizer. Quadril, costas, barriga, virilha, braços, pernas…

Ouvíamos o cd acústico da Alanis Morissete que taquei na bolsa de última hora no dia anterior. Cismei com esse cd e acabou sendo minha trilha de parto! ♥

Perguntaram se eu havia planejado algo para o expulsivo. Banheira? Banqueta? Chuveiro? Mas a verdade é que eu só queria que o João nascesse. Estava exausta, e por isso, acabei deitada. E foi nessa hora que eu realmente achei que não dava pra mim…

Mas deu! Apesar de minhas contrações estarem bem espaçadas, todos na sala me ajudaram guiando minhas forças, me falando pra respirar, e me dizendo que o João tava perto.

Senti o círculo de fogo, e quando coloquei a mão na cabeça do meu menino que já saia de mim, decidi: é agora! Tirei força não sei de onde e empurrei mais 3 vezes – uma delas fora de contração. E meu filho nasceu! 15h12, depois de umas 14 horas de TP.

Quando vi meu filho, não acreditava! Parecia que tinha sido tudo minha imaginação… eu tinha dor ainda, mas não parecia que era real. Minhas palavras foram: “meu filho é lindo, meu filho é lindo!”. E chorei, claro, de alegria e de alívio.

O João veio direto para o meu peito mamar. E mamou.

Por causa do cansaço, minhas pernas não paravam de tremer.

A saída da placenta foi sem dor alguma. Tomei injeção de ocitocina pra prevenir hemorragia – e essa sim, doeu. Tive 4 pontos por causa de laceração, mas teve anestesia para tomá-los.

Meu marido cortou o cordão umbilical. Ele diz ser duro, forte! Depois, ele acompanhou o João para a pesagem, e a rotina pós-parto.

Sobre o parto:  foi a coisa mais incrível e surreal que pude viver até hoje.

Aprendi muito: que nosso corpo é poderoso mesmo, que dor faz parte da vida mesmo, as físicas e emocionais, que chorar é preciso as vezes, que as pessoas que estão ao nosso lado são preciosas, mesmo as que ficam por pouquinho tempo…
Agradeço de mais à equipe da Casa de Parto que foi linda do pré-natal até minha alta, ao meu marido e à minha doula maravilhosa, Nathalia Passos!

E meu meninão chegou com 40+1, com 2975kg e 49 cm, apgar 10 no 5° minuto.


GLOSSÁRIO

  • Cardiotoco: é um método biofísico não invasivo de avaliação do bem estar fetal. Consiste no registro gráfico da frequência cardíaca fetal e das contrações uterinas. Costuma ser realizado mais para o fim da gestação. Além de verificar se o bebê está bem, a cardiotoco também serve para detectar a presença ou não de trabalho de parto.
  • Casa de PartoCentros de Parto Normal (nome oficial) são ambientes que unem o aconchego do lar aos recursos necessários para o atendimento de partos normais de baixo risco. Nas Casas de Parto o ato de dar à luz é tratado como um processo natural que faz parte da vida da mulher e para o qual o seu corpo está preparado. O tratamento oferecido é centrado nas necessidades e na segurança da parturiente e do bebê, com acolhimento e respeito. Nestes locais são incentivadas a integração familiar em torno do nascimento, a amamentação e o vínculo de afeto entre mãe, pai e bebê.
  • Escala de Apgar: método simples e eficiente de medir a saúde do recém-nascido e de determinar se ele precisa ou não de alguma assistência médica imediata. Um minuto após nascer e novamente aos cinco minutos de vida fora do útero, o bebê é avaliado: frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, reflexos e cor da pele. Cada um destes itens recebe uma nota entre 0 e 2 para se chegar a um total geral. Grande parte dos recém-nascidos recebe entre 7 e 10, não requerendo nenhum tratamento imediato, como, por exemplo, auxílio para respirar.
  • Parto Humanizado: O parto humanizado é um conjunto de práticas e procedimentos que buscam readequar o processo de parto dentro de uma perspectiva menos medicalizada e hospitalar, entendendo tanto a mulher quanto o bebê como protagonistas de todo o processo. A humanização não é um Tipo de Parto, mas o caminho para tornar o parto mais humano, menos mercadológico e violento.
  • Parto Natural: Quando se fala em parto natural, além de a via de parto ser a vaginal, se quer enfatizar que o bebê nasce sem intervenções médicas, como anestesia, analgésicos ou substâncias para acelerar as contrações.

Endereço Casa de Parto Sapopemba

R. São José das Espinharas, 400 – São Paulo (Zona Leste)