.5° ano C.

meninos pequenos conversam
dividem entre si, os sonhos
suas graças
seu afeto
a gente fica de costas
enchendo a mão de giz
machucando as cutículas
desenhando letras pra ninguém
melhor seria desvendar palavras ditas
distribuir asas ao pensamento
dar sentido ao riso
e rir junto também
amá-los de volta
como só é possível amar quem ainda não cresceu
meninos pequenos ainda têm tempo de achar caminho
ajuda se ouvir com a alma
e olhar nos olhos

Algumas vezes não durmo. Madrugada adentro de olhos fechados e alma desperta. A lua minguante me atravessa. Sinto calor, gosto amargo na boca e saudade. Tomada de cansaço, insisto em caminhar pelas estradas mais longas dentro de mim. Fechando portas e abrindo janelas. Imensidão.  Não quero me perder. De olhos fechados, concentro no caminho que percorro.  Os sons todos me abraçam. Encontro a lembrança mais remota, e deixo que ela se desfaça no ar. As horas vão passando, os pensamentos também. O corpo morno revira-se tomado de necessidade de voar. E voa. Dou por mim de volta ao chão quando já é dia claro, sem saber muito bem se dormi, enfim, ou se alcancei as nuvens.

.motim.

Uma força contrária nos atinge a cabeça.
Muro no meio da nossa estrada.
No que fazemos juntos
ordenados curtos
longas horas de labuta.
Onde se encontra tempo pra ser
pra ver
pra enternecer?
Carteira, registro e ponto.
E o tempo passando bárbaro.
E uma parede se ergue no meio do nosso caminho.
A gente grita.
Pisa forte na avenida.
Levanta estandarte de palavras-guia.
Ninguém vê.
Somos seres abstratos.
Números em folhas brancas de papel.
Contra-cheques e holerites no painel.
Saldo de gastos com pausas de quinze minutos.
Invisíveis necessidades.
Esquecidas almas perdidas
De barrigas quase vazias
Nutridos de fé e migalhas.
Doando de si o máximo
de juventude, força, lucidez e sapiência.
E nos querem velhos franzinos.
Loucos varridos no fim da vida.
E por hoje, nos preferem serenos.
Serenamente calados.
Inaudíveis ao sistema.
Nos querem pacíficos.
Mansos cordeiros de deus.
Quem dera ouvíssemos o que o espírito em revolta berra.
Antes que seja tarde.
Antes que ganhem a guerra.
Sejamos todos:
Insubmissos ao que não se atenta.
Desobedientes ao que está doente.
Inquietos e rebeldes.
Urremos juntos com a força de cem mil feras.
Devolvamos, na mesma medida,
a truculência
o descaso
a rispidez.
Estejamos juntos para além da diária luta.
A vida é curta.
Derrubemos a muralha que se impõe.
Ou morre conosco o pouco que ainda dá sentido.
Que eles morram de medo de um povo destemido.
Banksy

.todas as vozes.

Não vão nos calar. Nem uma a menos. Eu não vim da sua costela, você que veio do meu útero. Meu senso crítico não é TPM. A mídia é machista. A cada 90 minutos, uma mulher é morta no Brasil. O machismo mata, o feminismo liberta. Meu corpo, minhas regras. Legaliza o aborto. Eu paro pela vida das mulheres. Não me mate se eu não te quiser mais. Essa dor é sua. Quem ama não mata, não humilha e nem maltrata. Nossas vidas importam. Tire seu machismo do caminho. Pelo fim da violência obstétrica. Respeite minha existência ou espere resistência. Não é não! Parem de nos matar. Existo porque resisto. Nem recatada e nem do lar, a mulherada ta na rua pra lutar. Violência contra a mulher também é problema social. Respeita as mães, porra! Todas juntas. Das ruas não sairemos. Nenhum direito a menos. Fora Temer. O feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todo dia. O feminismo é anticapitalista. Feminismo é a ideia radical de que as mulher são gente. Ensinem os homens a respeitar, e não as mulheres a temer. Meu útero é laico, e é meu. Sóbria ou chapada, vestida ou pelada, toda mulher merece ser respeitada. Não somos rivais. Companheira me ajude, eu não posso andar só. Eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor. Lugar de mulher é onde ela quiser. Deixa as minas falarem. Menos flores, mais direitos. Por todas aquelas: presas, ameaçadas e amedrontadas. Lutar sem temer. A nossa luta é todo dia, o nosso corpo não é mercadoria. Se nossas vidas não importam, produzam sem nós.  Se cuida, seu machista, a América Latina vai ser toda feminista. Vulva a revolução!

Fotografia de Beatriz Rogatto
Na foto: a linda Jéssica Franco

(Dia 8 de março de 2017 nos encontramos nas ruas. Foi lindo!
Mas juntas estamos todos os dias na mesma labuta.
Não me esquecerei da força que temos. Obrigada!)

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Música pra embalar todos os nossos 365 dias da mulher.

Indico também as fotos de Marina Sampaio: http://www.mamsampaio.com/projects/6391844

.carnaval.

Militão dos Santos – Carnaval de Olinda

A gente também precisa de festa. De luta e de festa. De trampo e de festa. E ócio. A gente precisa de som, balanço e cor. Todo dia é dia de ser feliz. Mas a gente precisa extrapolar pra aprender como é que se faz. A gente precisa de diversão, de folia, de fantasia. Ser grande e sem medida. A vida precisa de farra. Caçar motivo, inventar razão. Tamborim e cuíca – precisa. Também tem que ter brincadeira. Pra rir da graça do outro. Pra abraçar o riso que não é nosso. E olhar com olhos sinceros gente que a gente nunca viu. A gente precisa de gente que ocupe as ruas e cante canções. Precisa pular embaixo de sol, se vestir de outros e aproveitar os motivos pra brindar. Liberdade pra ser espalhafatoso e cômico. É festa da carne, dizem. Mas não só. A alma também festeja. E o coração bate acelerado como quem toca o batuque. E combina com o Verão. E segue o bloco. Enfeita a vida da gente. Que também é feita de ócio, e de trampo, e de luta. Porque a vida é curta. Mas não precisa ser pequena.

Playlist de Carnaval <3
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Botemos nosso bloco na rua.