.todos os dias.

A vida nos desafia. Mais ainda quando a gente está desatento. Um minuto de distração, e quando paramos pra reparar, tudo mudou de novo. Porque a vida não gosta de inércia. Prefere nos pôr a sacudir. Alvoroçar a ordem das coisas e estremecer nossas estruturas pessoais.  Quanto mais a gente finge ter controle, mais a vida altera o mundo pra que a gente não se acomode. Se a gente olhar bem de perto, talvez não haja um dia sequer em que não sejamos provocados pela vida, ou do lado de dentro ou do lado de fora. Porque coisas grandes e pequenas passam por nós, e toda espécie de gente, e todo tipo de experiência e sentimento e pensamento. A vida, definitivamente, não é algo que fica a nos observar apenas, ela nos chama pra peleja, nos incita a ser melhores, e nos empurra a caminhar. Não fosse isso, não faríamos casas, nem filhos, não existiram foguetes, nem vinho, nem discos de vinil. Não fosse a vida nos afrontando, as paixões não seriam assim tão arrebatadoras, as raivas não seriam tão destruidoras e as amizades não se fariam tão necessárias. Tudo que dói é a vida nos chamando pro combate. Tudo que nos faz rir é a vida nos dizendo que valeu a pena recomeçar. E sempre valerá.

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O trabalho de um professor de escola pública consiste em ensinar e cuidar de (em média) 30 crianças (as vezes muito mais e as vezes um pouco menos) por período. Crianças cheias de questões, de defasagem e de carência.

O professor tbm se formou na universidade, leu livros e tirou notas, que nunca o ensinaram como seria estar dentro de uma sala de aula, mas que deram um trabalho danado – como imagino ser a maioria dos cursos universitários.

Além disso, o professor tem que, no decorrer da carreira, aprender a se virar na resolução de conflitos, na falta de recursos físicos da escola e nos dramas mais surreais que uma sociedade cheia de violência e descaso pode trazer pra dentro da escola.

Somado a isso tudo, o professor é cobrado a ter amor pelo que faz. Mesmo tendo que, em muitos momentos, lidar com gestões injustas ou incapazes, pais completamente ausentes e alunos desinteressados.

Apesar de tudo isso, eu conheço professores maravilhosos, que dispensam um monte de tempo da sua vida fora da unidade escolar para preparar atividades bacanas, propor passeios educativos, buscar informação e ajuda pra seus alunos. Eu conheço professores ruins também, mas é como eu sempre digo: um professor bom vale por 3 ruins (que não são maioria, eu garanto).

A gente gasta tempo, dinheiro e sentimento dentro da sala de aula e, algumas vezes, fora dela tbm.

Por isso, acho tão surreal que quase todo ano, a gente tenha que brigar e tentar convencer a população e o governo de que nossas lutas por ajustes salariais e mudanças estruturais são justas e necessárias.

E sim, professor concursado até que não ganha tão mal comparado à população brasileira, mas ta longe de ganhar o que merece pelo que faz.

Só pra constar: o auxílio moradia dos juízes tem mais altos valores do que os salários de um monte de professores da rede. Eu não desmereço o trabalho deles, embora ache seu salário e benefícios abusivos. E por isso, não aceito que desmereçam o meu trabalho, e questionem o meu salário e a minha (distante) aposentadoria.

Eu realmente acho que as pessoas deviam conversar mais. Não aquelas superficialidades sobre o trabalho, o tempo ou o que comer no jantar. Nem sobre política, religião e futebol – embora essas coisas devam ter tbm um lugar importante nos nossos dias, claro.

Mas eu quero dizer: conversar de verdade, sobre pra onde caminha a humanidade, a nossa própria humanidade, sobre o mundo e nossos encaixes nele, sobre os sentimentos, as coisas da vida, as dúvidas.

Desbravar mesmo as ideias do outro, tentar ver outros ângulos das mudanças pelas quais passamos e passam as coisas ao nosso redor. Gastar tempo com o outro e consigo, olhando nos olhos de quem está na nossa frente e pra dentro de nós mesmos.

Temos tanto pra trocar, pra entender, pra aprender, desmistificar…

Não são raras as vezes em que uma conversa real e verdadeira com alguém sobre uma questão que não é minha acaba por revelar algo extremamente precioso sobre mim ou para mim.

As palavras têm um poder danado. Verbalizar e ouvir é muito necessário.

E sobre tudo isso, eu só posso dizer:

Obrigada, amigos, por todo tempo de profundezas dividido comigo.

.lição feminina diária.

Agonia que dá
ter casa, filho e companheiro pra cuidá
Trabalho pra ajeitá
Tarefas pra pensá…

A gente passa uma parte da vida
Aprendendo a andá e falá
E a outra a calá e cuidá.

Zela pela comida a prepará
Pelo primor do próprio lar
Pela aparência própria que o outro deve avaliá.

Ser mulher dá trabalho pra daná
E bem pouco tempo sobra
Pra parar e em si mesma pensá:

Fica engasgado na garganta
O que jamais deveria ficá
E uma alma esmagada
Por não conseguir se encontrá.

Cuidar de si mesma devia ser matéria escolar.

Pra gente aprender a se amar
E aos outros não se compará
O próprio corpo observar
E para além do espelho de bolso enxergá

Dosar o tempo pra ser e estar
Dentro de si mesma em todo e qualquer lugar.

Rir sem medo da gargalhada escapar
Memorizar cada bom jeito de esticar as pernas e relaxar
Sem receio do que os outros vão achar.

Exercitar a peculiar capacidade
de esticar-se inteira e gozar.

Nenhuma palavra verdadeira por pressão sufocá
Todo sentimento necessário expressar
Rede de apoio criar
Com outras mulheres experiências trocar
Ser também feita de arte, poder e voar
A gente também precisa sonhar…

Cuidar do outro não precisa significar de si mesma descuidar.

Antes tarde do que nunca
Que a gente seja mais do que esteio alheio
Que se arme de força e vontade de inspirar
Porque essa vida tem de ter espaço
Pra gente ir além e bailar.

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*Liniers

.relato de parto.

A espera pela chegada de um filho, na reta final, entre 39 e 42 semanas é cheia de ansiedade. Especialmente quando, como no nosso caso, havia a expectativa de conseguirmos nosso primeiro encontro na Casa de Parto Sapopemba. O atendimento lá só poderia acontecer até as 41 semanas. Depois disso, caminharíamos juntos, eu e ele, para nosso plano B ou C. Mas, claro, a gente queria mesmo era o plano A.

Na noite do dia 5, enquanto eu fazia um escalda pé na sálvia com alecrim senti muitas contrações de treinamento, mas sem muita dor, só desconforto. Vale dizer que eu tomei chá de abacaxi com canela e gengibre por 2 dias, dancei MC Kevinho (Rabiola) todos os dias durante uma semana, e fiz exercícios de agachamento. Porque, como disse, queria muito que meu parto fosse na Casa de Parto, e eu já havia chegado às 40 semanas.

Tentei tudo que pudesse para “acelerar” de forma natural meu trabalho de parto: tomei um shake que me ensinaram na Casa de Parto, comi tâmaras e diminui açúcar… (Não consegui diminuir o carboidrato!). Também conversei com a barriga, tentei concentrar e meditar pra ficar calma e pra meu bebê “chegar chegando”. Ou seja, tinha um objetivo claro.

Nessa noite, fui dormir com cólicas e sentindo mais contrações – dessa vez, um pouco mais doloridas, mas ainda muito parecidas com o que eu já tava sentindo na semana anterior. Só que por volta de umas 2 da madrugada, elas se intensificaram. Acordei meu marido. E aí começamos a marcar os intervalos de uma pra outra. Na regra geral, as contrações do trabalho de parto são ritmadas. O que não aconteceu com as minhas, que se alteravam em 3,5, 7, 8 minutos de uma pra outra, e duravam 50 segundos, 1 minuto, 2. Por não ter perdido tampão e nem ter estourado a bolsa, fiquei com bastante receio de ser alarme falso e achei melhor ficar mais em casa e esperar mais um tempo pra chamar “minha” doula. Não gostaria de chegar na Casa de Parto e ter que voltar, e também, pra mim, não fazia sentido, chamá-la de madrugada pra “nada”.Nenhum texto alternativo automático disponível.

Só que fiquei nessa, das 2 até umas 6 da manhã, e a dor se intensificava. Conversei com a Nathy (doula ♥), que me recomendou um banho pra ver como eu me sentia – eu tinha medo de que o banho interrompesse o trabalho de parto. Mas as palavras dela foram: “Se o TP parar é porque não chegou ainda a hora de o João vir ao mundo!”. Acreditei.

O banho dava uma amenizada, mas as contrações continuavam.

Meu marido, enquanto isso, contava as contrações, fazia massagem, me dava água, frutas e fazia tudo que podia para me deixar mais confortável.

Chamei a Nathy para vir pra minha casa, tomei café da manhã, mas como já havia acontecido durante a madrugada, eu comia e vomitava. Nada parava no meu estômago. Mesmo assim, eu me forçava a comer porque sabia que precisaria de energia.

Quando a Nathy chegou, conversamos um pouco, e ela acompanhou algumas das contrações, ainda não ritmadas. Um dos momentos mais inesquecíveis desse momento em casa foi o de estar em pé apoiada na rede e a Nathy massageando minhas costas e quadril.

Foi exatamente depois disso que resolvemos juntos ir para a Casa de Parto.

A malinha já estava arrumada, mas ainda me lembrei de colocar na bolsa uma base e um batom.

Chamamos um Cabify, avisamos que eu estava em trabalho de parto, mas que ele podia ir com calma que tínhamos tempo. Ele foi maravilhoso. Não só dirigiu com tranquilidade e agilidade, como foi extremamente respeitoso e gentil.  Enquanto isso, eu tentava controlar os gemidos nas contrações para não assustá-lo (risos).

Chegamos na Casa de Parto e fui ser examinada pela Enfermeira Thaís e a auxiliar de enfermagem: cardiotoco do Neném ok, pressão arterial e temperatura da mamãe ok e, por fim, o exame de toque que mostrou que eu estava com 6 cm de dilatação! Ficar 20 minutos deitada para o cardiotoco não foi fácil. Fico imaginando como sobrevivem as mulheres que são obrigadas a ficarem deitadas o tempo todo nas camas de hospital durante seus trabalhos de parto.

Fomos, então, para a sala de parto. Eu, a Nathy (doula) e meu marido. Fui direto pra bola e chuveiro, onde fiquei por bastante tempo. Tirar a roupa na frente deles e da enfermeira me deixou constrangida por uns 10 segundos, acho.

Lá, eu também tentei comer. Lembro de estar na bola e no chuveiro com um copinho de água gelado do lado, mastigando uma bolacha de maisena. Salvadores!

Meu marido ficou comigo o tempo todo, e vez por outro pegava na minha mão, acariciava minhas costas ou reagia aos meus pedidos. Também não imagino como passar por isso sem o apoio de quem a gente ama. O suporte da minha doula – com apoio emocional e massagens foi fundamental. E a presença, força e palavras do meu marido também foram indispensáveis. Sem eles, eu realmente não sei como seria…

As enfermeiras nos deixaram muito a vontade e iam e vinham muito de vez em quando avaliar como estávamos física e emocionalmente.

Trouxeram comida, mas não consegui comer muito e, óbvio, botei tudo pra fora novamente.

Fora do chuveiro, tentei a banqueta e odiei, sentei na poltrona, ajoelhei no chão, nem conseguia olhar para a banheira, e chuveiro continuou sendo minha salvação.

Eu não me lembro direito, mas meu marido disse que as vezes eu falava que “não conseguiria”, e eles diziam que “eu já havia passado a maior parte, metade do caminho”. Lembro da Nathy dizer, não é uma contração a mais, é uma menos pra encontrar o João.

Na sexta anterior, uma amiga, num e-mail me deu uma dica de sempre me preparar para mais 3, e ir em frente. Pensei nela e nas palavras dela o tempo todo. =)

Tive vontade de fazer cocô e vieram me examinar mais uma vez. Durante o exame, a bolsa estourou e saiu o líquido claro. Mais um alívio. Tem o tal do mecônio, que embora não seja exatamente um grande problema, pode acabar por sê-lo.

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Meu corpo inteiro doía. Não é modo de dizer. Quadril, costas, barriga, virilha, braços, pernas…

Ouvíamos o cd acústico da Alanis Morissete que taquei na bolsa de última hora no dia anterior. Cismei com esse cd e acabou sendo minha trilha de parto! ♥

Perguntaram se eu havia planejado algo para o expulsivo. Banheira? Banqueta? Chuveiro? Mas a verdade é que eu só queria que o João nascesse. Estava exausta, e por isso, acabei deitada. E foi nessa hora que eu realmente achei que não dava pra mim…

Mas deu! Apesar de minhas contrações estarem bem espaçadas, todos na sala me ajudaram guiando minhas forças, me falando pra respirar, e me dizendo que o João tava perto.

Senti o círculo de fogo, e quando coloquei a mão na cabeça do meu menino que já saia de mim, decidi: é agora! Tirei força não sei de onde e empurrei mais 3 vezes – uma delas fora de contração. E meu filho nasceu! 15h12, depois de umas 14 horas de TP.

Quando vi meu filho, não acreditava! Parecia que tinha sido tudo minha imaginação… eu tinha dor ainda, mas não parecia que era real. Minhas palavras foram: “meu filho é lindo, meu filho é lindo!”. E chorei, claro, de alegria e de alívio.

O João veio direto para o meu peito mamar. E mamou.

Por causa do cansaço, minhas pernas não paravam de tremer.

A saída da placenta foi sem dor alguma. Tomei injeção de ocitocina pra prevenir hemorragia – e essa sim, doeu. Tive 4 pontos por causa de laceração, mas teve anestesia para tomá-los.

Meu marido cortou o cordão umbilical. Ele diz ser duro, forte! Depois, ele acompanhou o João para a pesagem, e a rotina pós-parto.

Sobre o parto:  foi a coisa mais incrível e surreal que pude viver até hoje.

Aprendi muito: que nosso corpo é poderoso mesmo, que dor faz parte da vida mesmo, as físicas e emocionais, que chorar é preciso as vezes, que as pessoas que estão ao nosso lado são preciosas, mesmo as que ficam por pouquinho tempo…
Agradeço de mais à equipe da Casa de Parto que foi linda do pré-natal até minha alta, ao meu marido e à minha doula maravilhosa, Nathalia Passos!

E meu meninão chegou com 40+1, com 2975kg e 49 cm, apgar 10 no 5° minuto.


GLOSSÁRIO

  • Cardiotoco: é um método biofísico não invasivo de avaliação do bem estar fetal. Consiste no registro gráfico da frequência cardíaca fetal e das contrações uterinas. Costuma ser realizado mais para o fim da gestação. Além de verificar se o bebê está bem, a cardiotoco também serve para detectar a presença ou não de trabalho de parto.
  • Casa de PartoCentros de Parto Normal (nome oficial) são ambientes que unem o aconchego do lar aos recursos necessários para o atendimento de partos normais de baixo risco. Nas Casas de Parto o ato de dar à luz é tratado como um processo natural que faz parte da vida da mulher e para o qual o seu corpo está preparado. O tratamento oferecido é centrado nas necessidades e na segurança da parturiente e do bebê, com acolhimento e respeito. Nestes locais são incentivadas a integração familiar em torno do nascimento, a amamentação e o vínculo de afeto entre mãe, pai e bebê.
  • Escala de Apgar: método simples e eficiente de medir a saúde do recém-nascido e de determinar se ele precisa ou não de alguma assistência médica imediata. Um minuto após nascer e novamente aos cinco minutos de vida fora do útero, o bebê é avaliado: frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, reflexos e cor da pele. Cada um destes itens recebe uma nota entre 0 e 2 para se chegar a um total geral. Grande parte dos recém-nascidos recebe entre 7 e 10, não requerendo nenhum tratamento imediato, como, por exemplo, auxílio para respirar.
  • Parto Humanizado: O parto humanizado é um conjunto de práticas e procedimentos que buscam readequar o processo de parto dentro de uma perspectiva menos medicalizada e hospitalar, entendendo tanto a mulher quanto o bebê como protagonistas de todo o processo. A humanização não é um Tipo de Parto, mas o caminho para tornar o parto mais humano, menos mercadológico e violento.
  • Parto Natural: Quando se fala em parto natural, além de a via de parto ser a vaginal, se quer enfatizar que o bebê nasce sem intervenções médicas, como anestesia, analgésicos ou substâncias para acelerar as contrações.

Endereço Casa de Parto Sapopemba

R. São José das Espinharas, 400 – São Paulo (Zona Leste)