.relato de parto.

A espera pela chegada de um filho, na reta final, entre 39 e 42 semanas é cheia de ansiedade. Especialmente quando, como no nosso caso, havia a expectativa de conseguirmos nosso primeiro encontro na Casa de Parto Sapopemba. O atendimento lá só poderia acontecer até as 41 semanas. Depois disso, caminharíamos juntos, eu e ele, para nosso plano B ou C. Mas, claro, a gente queria mesmo era o plano A.

Na noite do dia 5, enquanto eu fazia um escalda pé na sálvia com alecrim senti muitas contrações de treinamento, mas sem muita dor, só desconforto. Vale dizer que eu tomei chá de abacaxi com canela e gengibre por 2 dias, dancei MC Kevinho (Rabiola) todos os dias durante uma semana, e fiz exercícios de agachamento. Porque, como disse, queria muito que meu parto fosse na Casa de Parto, e eu já havia chegado às 40 semanas.

Tentei tudo que pudesse para “acelerar” de forma natural meu trabalho de parto: tomei um shake que me ensinaram na Casa de Parto, comi tâmaras e diminui açúcar… (Não consegui diminuir o carboidrato!). Também conversei com a barriga, tentei concentrar e meditar pra ficar calma e pra meu bebê “chegar chegando”. Ou seja, tinha um objetivo claro.

Nessa noite, fui dormir com cólicas e sentindo mais contrações – dessa vez, um pouco mais doloridas, mas ainda muito parecidas com o que eu já tava sentindo na semana anterior. Só que por volta de umas 2 da madrugada, elas se intensificaram. Acordei meu marido. E aí começamos a marcar os intervalos de uma pra outra. Na regra geral, as contrações do trabalho de parto são ritmadas. O que não aconteceu com as minhas, que se alteravam em 3,5, 7, 8 minutos de uma pra outra, e duravam 50 segundos, 1 minuto, 2. Por não ter perdido tampão e nem ter estourado a bolsa, fiquei com bastante receio de ser alarme falso e achei melhor ficar mais em casa e esperar mais um tempo pra chamar “minha” doula. Não gostaria de chegar na Casa de Parto e ter que voltar, e também, pra mim, não fazia sentido, chamá-la de madrugada pra “nada”.Nenhum texto alternativo automático disponível.

Só que fiquei nessa, das 2 até umas 6 da manhã, e a dor se intensificava. Conversei com a Nathy (doula ♥), que me recomendou um banho pra ver como eu me sentia – eu tinha medo de que o banho interrompesse o trabalho de parto. Mas as palavras dela foram: “Se o TP parar é porque não chegou ainda a hora de o João vir ao mundo!”. Acreditei.

O banho dava uma amenizada, mas as contrações continuavam.

Meu marido, enquanto isso, contava as contrações, fazia massagem, me dava água, frutas e fazia tudo que podia para me deixar mais confortável.

Chamei a Nathy para vir pra minha casa, tomei café da manhã, mas como já havia acontecido durante a madrugada, eu comia e vomitava. Nada parava no meu estômago. Mesmo assim, eu me forçava a comer porque sabia que precisaria de energia.

Quando a Nathy chegou, conversamos um pouco, e ela acompanhou algumas das contrações, ainda não ritmadas. Um dos momentos mais inesquecíveis desse momento em casa foi o de estar em pé apoiada na rede e a Nathy massageando minhas costas e quadril.

Foi exatamente depois disso que resolvemos juntos ir para a Casa de Parto.

A malinha já estava arrumada, mas ainda me lembrei de colocar na bolsa uma base e um batom.

Chamamos um Cabify, avisamos que eu estava em trabalho de parto, mas que ele podia ir com calma que tínhamos tempo. Ele foi maravilhoso. Não só dirigiu com tranquilidade e agilidade, como foi extremamente respeitoso e gentil.  Enquanto isso, eu tentava controlar os gemidos nas contrações para não assustá-lo (risos).

Chegamos na Casa de Parto e fui ser examinada pela Enfermeira Thaís e a auxiliar de enfermagem: cardiotoco do Neném ok, pressão arterial e temperatura da mamãe ok e, por fim, o exame de toque que mostrou que eu estava com 6 cm de dilatação! Ficar 20 minutos deitada para o cardiotoco não foi fácil. Fico imaginando como sobrevivem as mulheres que são obrigadas a ficarem deitadas o tempo todo nas camas de hospital durante seus trabalhos de parto.

Fomos, então, para a sala de parto. Eu, a Nathy (doula) e meu marido. Fui direto pra bola e chuveiro, onde fiquei por bastante tempo. Tirar a roupa na frente deles e da enfermeira me deixou constrangida por uns 10 segundos, acho.

Lá, eu também tentei comer. Lembro de estar na bola e no chuveiro com um copinho de água gelado do lado, mastigando uma bolacha de maisena. Salvadores!

Meu marido ficou comigo o tempo todo, e vez por outro pegava na minha mão, acariciava minhas costas ou reagia aos meus pedidos. Também não imagino como passar por isso sem o apoio de quem a gente ama. O suporte da minha doula – com apoio emocional e massagens foi fundamental. E a presença, força e palavras do meu marido também foram indispensáveis. Sem eles, eu realmente não sei como seria…

As enfermeiras nos deixaram muito a vontade e iam e vinham muito de vez em quando avaliar como estávamos física e emocionalmente.

Trouxeram comida, mas não consegui comer muito e, óbvio, botei tudo pra fora novamente.

Fora do chuveiro, tentei a banqueta e odiei, sentei na poltrona, ajoelhei no chão, nem conseguia olhar para a banheira, e chuveiro continuou sendo minha salvação.

Eu não me lembro direito, mas meu marido disse que as vezes eu falava que “não conseguiria”, e eles diziam que “eu já havia passado a maior parte, metade do caminho”. Lembro da Nathy dizer, não é uma contração a mais, é uma menos pra encontrar o João.

Na sexta anterior, uma amiga, num e-mail me deu uma dica de sempre me preparar para mais 3, e ir em frente. Pensei nela e nas palavras dela o tempo todo. =)

Tive vontade de fazer cocô e vieram me examinar mais uma vez. Durante o exame, a bolsa estourou e saiu o líquido claro. Mais um alívio. Tem o tal do mecônio, que embora não seja exatamente um grande problema, pode acabar por sê-lo.

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Meu corpo inteiro doía. Não é modo de dizer. Quadril, costas, barriga, virilha, braços, pernas…

Ouvíamos o cd acústico da Alanis Morissete que taquei na bolsa de última hora no dia anterior. Cismei com esse cd e acabou sendo minha trilha de parto! ♥

Perguntaram se eu havia planejado algo para o expulsivo. Banheira? Banqueta? Chuveiro? Mas a verdade é que eu só queria que o João nascesse. Estava exausta, e por isso, acabei deitada. E foi nessa hora que eu realmente achei que não dava pra mim…

Mas deu! Apesar de minhas contrações estarem bem espaçadas, todos na sala me ajudaram guiando minhas forças, me falando pra respirar, e me dizendo que o João tava perto.

Senti o círculo de fogo, e quando coloquei a mão na cabeça do meu menino que já saia de mim, decidi: é agora! Tirei força não sei de onde e empurrei mais 3 vezes – uma delas fora de contração. E meu filho nasceu! 15h12, depois de umas 14 horas de TP.

Quando vi meu filho, não acreditava! Parecia que tinha sido tudo minha imaginação… eu tinha dor ainda, mas não parecia que era real. Minhas palavras foram: “meu filho é lindo, meu filho é lindo!”. E chorei, claro, de alegria e de alívio.

O João veio direto para o meu peito mamar. E mamou.

Por causa do cansaço, minhas pernas não paravam de tremer.

A saída da placenta foi sem dor alguma. Tomei injeção de ocitocina pra prevenir hemorragia – e essa sim, doeu. Tive 4 pontos por causa de laceração, mas teve anestesia para tomá-los.

Meu marido cortou o cordão umbilical. Ele diz ser duro, forte! Depois, ele acompanhou o João para a pesagem, e a rotina pós-parto.

Sobre o parto:  foi a coisa mais incrível e surreal que pude viver até hoje.

Aprendi muito: que nosso corpo é poderoso mesmo, que dor faz parte da vida mesmo, as físicas e emocionais, que chorar é preciso as vezes, que as pessoas que estão ao nosso lado são preciosas, mesmo as que ficam por pouquinho tempo…
Agradeço de mais à equipe da Casa de Parto que foi linda do pré-natal até minha alta, ao meu marido e à minha doula maravilhosa, Nathalia Passos!

E meu meninão chegou com 40+1, com 2975kg e 49 cm, apgar 10 no 5° minuto.


GLOSSÁRIO

  • Cardiotoco: é um método biofísico não invasivo de avaliação do bem estar fetal. Consiste no registro gráfico da frequência cardíaca fetal e das contrações uterinas. Costuma ser realizado mais para o fim da gestação. Além de verificar se o bebê está bem, a cardiotoco também serve para detectar a presença ou não de trabalho de parto.
  • Casa de PartoCentros de Parto Normal (nome oficial) são ambientes que unem o aconchego do lar aos recursos necessários para o atendimento de partos normais de baixo risco. Nas Casas de Parto o ato de dar à luz é tratado como um processo natural que faz parte da vida da mulher e para o qual o seu corpo está preparado. O tratamento oferecido é centrado nas necessidades e na segurança da parturiente e do bebê, com acolhimento e respeito. Nestes locais são incentivadas a integração familiar em torno do nascimento, a amamentação e o vínculo de afeto entre mãe, pai e bebê.
  • Escala de Apgar: método simples e eficiente de medir a saúde do recém-nascido e de determinar se ele precisa ou não de alguma assistência médica imediata. Um minuto após nascer e novamente aos cinco minutos de vida fora do útero, o bebê é avaliado: frequência cardíaca, respiração, tônus muscular, reflexos e cor da pele. Cada um destes itens recebe uma nota entre 0 e 2 para se chegar a um total geral. Grande parte dos recém-nascidos recebe entre 7 e 10, não requerendo nenhum tratamento imediato, como, por exemplo, auxílio para respirar.
  • Parto Humanizado: O parto humanizado é um conjunto de práticas e procedimentos que buscam readequar o processo de parto dentro de uma perspectiva menos medicalizada e hospitalar, entendendo tanto a mulher quanto o bebê como protagonistas de todo o processo. A humanização não é um Tipo de Parto, mas o caminho para tornar o parto mais humano, menos mercadológico e violento.
  • Parto Natural: Quando se fala em parto natural, além de a via de parto ser a vaginal, se quer enfatizar que o bebê nasce sem intervenções médicas, como anestesia, analgésicos ou substâncias para acelerar as contrações.

Endereço Casa de Parto Sapopemba

R. São José das Espinharas, 400 – São Paulo (Zona Leste)

.opinião dos outros.

A opinião dos outros:
Quem sabe,
As vezes.

O olho atento
e o coração sensível
Determinam o destino
Da palavra
Do voto
Toda tese alheia
Os palpites
Cada pequena teima
E consideração

A opinião dos outros
Fede
Atrapalha as ideias
Cria asas
Forja teia no pensamento
Embaralha
Escoa pelos dedos
Passa rápida
Serve de companhia
Faz volume
Preenche espaços
(principalmente os vazios)
É abraço
Murro
Amarra
Cerca viva
Prisão em domicílio
Embaça a visão
Desanuvia a mente inquieta
Vicia
Soma ao lixo
Escorre ao ralo
Envolve os membros
Dá corda aos medos
Serve ao riso
Piada pronta
Destrói castelos
Ergue muros
Inicia guerras
Perde batalhas
Derruba impulsos
Ambígua
Confunde
Soma receios
Aumenta a vontade
Desafia
Fala por si
Tem o exato tamanho do crédito que recebe.

A opinião dos outros
Importa ou não

Depende

.fado.

No horizonte, a gente enxerga céu, amanheceres, crepúsculos, possibilidades. É pra onde se deve caminhar. Passo depois de passo, alguns tropeços, corridas e tentativas de retorno. A gente sempre acaba indo em frente ou, no máximo, estagna, senta no chão e chora. Pra frente é que se anda, e ainda que o olhar esteja no que passou, não há como voltar atrás. O que nos espera é o porvir, à espera de ser escrito, desenhado, vivido. Por mais que se tracem rotas perfeitas, há miragens, abismos e bifurcações. É preciso estratégia, sim, mas principalmente flexibilidade. Um céu nunca é igual ao outro. Nem as fronteiras. Nem as histórias. E o que há de vir guarda imprecisão. O agora é construção, mas é também surpresa. Acaso ou destino, que seja. Nem tudo é obra de escolhas sensatas, milimetricamente pensadas. As vezes, o amanhã é calcado no imprevisto ou numa mudança súbita não planejada. É quando o horizonte, incerto, se esconde atrás de neblina. Os passos precisam ser mais curtos, firmados no chão, calmos, sem grandes expectativas. E a gente não aprende a esperar pra ver. Quer pra já e não mais tarde. De nada adianta querer. Dá medo não saber o que será. Mas medo é parte da travessia. E é no não saber que se guarda a beleza do reencontro da claridade e da imensidão. Certos encantos só se encontram no depois, feito a sorte de tropeçar em mais um botão pra coleção. É sem aviso. E vai chegar. Deixa vir.

Só o amor é luz.

 

.pé-de-meia.

A gente precisa mesmo. Tá dito. Roupa, canto, comida se paga com vintém. Fazer pé de meia pra uma velhice tranquila, a gente pensa. Quer poupança e investimento. E pro hoje, tanta coisa pra encher os espaços vazios da nossa vida. A gente quer ter, quer garantir. E precisa, diz-se. Prata, moeda, tostão. Um montante salvaguarda e proteção. No pé-de-meia cabe ouro, cabe nota, cabe tudo que sobra de cada pedaço do nosso tempo vendido. Pra uma vida feliz: dinheiro. Para uma existência mais amena: grana. Pro amanhã: economia e trabalho. A gente precisa. Pro dia a dia: trocado. Pras exceções e apertos: bufunfa. Salário suado, a gente aprende a dar valor. Tutu e cobre. A gente torce pra que sobre algum. A gente sabe que precisa guardar. Cuidar bem do que é nosso. Patrimônio, bens, capital. E, enquanto a gente pensa que precisa mesmo, que precisa muito, que precisa mais, precificam tudo ao nosso redor. Pra facilitar um pensamento que já indica que conta bancária é tudo e que tudo se pode comprar. Pagando bem que mal tem? Até água, até terra pra morar, até comida que preste. Até companhia, até sexo, até liberdade. Até certezas, até verdades, até conexões. A gente pensa que precisa. A gente pensa que pode comprar. E confunde o que é vontade com necessidade. Se vender é o que não vale. A gente precisa, tá dito. Certa quantia, alguma importância. Mas não tanto, nem pra tudo. Pé-de-meia também se faz de amor, família e descanso. O que não se compra vale mais. Fortuna em forma de afeto, riqueza que cabe em tardes tranquilas de domingo cercadas de gente preciosa. Tesouro, de fato.


E tem playlist:

.só pra saber.

Tem notícia ruim pra todo gosto e desgosto. Que a gente consome, em que a gente se engasga, onde a gente se afoga. Hábito. Vício. Droga. Todo dia. Todo tempo. Notícia falsa,  notícia velha, desinformação. Que não explicam nada, que não ajudam ninguém. Crueldade em forma de fato, atrocidade com cara de relato. É tóxico. Entorpecem e envenenam. Até que nos acostumemos ao nojo que dá, à raiva que dá, ao medo que dá. Até que cada comunicado feito em rede nacional só sirva mesmo pra dolorir. Soterrando de sujeira e lágrima toda a frágil esperança e energia. De todo horror tem de nascer um movimento, ou calejamos a alma e a vontade. Sendo passivos ao invés de pacíficos. Pra cada mal, nutrirmo-nos de beleza e poesia. Verdade e afeto. Ideia e sentido. Antídotos necessários para que as manchetes não devorem nossa capacidade de mudar o mundo e nossa força pra lutar.

Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar…
– Chico Science e Nação Zumbi