.bela, recatada e do lar.

Sou gentil, mas não me calo. Cordial, mas não me omito. Por onde eu ando, rebolo ao lado de quem quiser. Eu tive exemplos maiores. Da minha história, sou fruto. Eu tenho ideais e utopias, pelos quais, eu discuto e luto. Eu brindo com cerveja ou vinho, a depender da noite ou do dia. E bebo pra combinar com meu caos ou calmaria. Sou feita de pele e pelos, que tiro ou desenho ao bel prazer. Eu não me amarro, e só me jogo a quem a mim não pretende deter.  Não sou princesa, nem só beleza, não dou certeza. Eu danço nua. Eu olho a lua. E vou pra rua. Eu passo batom vermelho pra quando minha alma dança; e saio de cara lavada pra quando o espírito cansa. Eu sinto como puder, amo homem ou mulher, depilo se vontade tiver, sou livre pra escolher. Se eu quiser fumar, eu fumo. Eu decido o que preciso, o que eu posso, pra onde vou. Só eu sei do meu juízo, dos meus anseios, do meu pavor. Abro as janelas e as pernas pra quem minha vontade mandar. Sou eu, quem cuida e merece, meu corpo, meu riso, meu lar. Não adianta falar muito alto, se precisar, eu até grito mais. Ainda que pareça indefesa, não me sinto sozinha jamais. Eu sapateio na boa moral cristã, que não sabe ou não aprendeu a amar. Derramo meu afeto completo em quem ouve pra depois falar. Posso ser bicha, maluca, vadia, mas não há que decida, juiz, não há que me cure, doutor, não há que me impeça, pastor. Eu tenho garra, luxúria e tesão. Tenho fé, energia e paixão. Faço a mandinga que me couber, e rezo o terço se convier. Meus nervos não são de aço. Eu choro e sangro todo mês.E sobrevivo a cada lágrima, uma por vez. Não me envergonho dos meus fluídos. Não há recato que me controle, ou aos meus carinhos e aos meus sentidos. A minha beleza não é montada, não é moldada e não acaba. De brilho no olho, cheiro de gente  e alma lavada. Sou feita de dúvidas, exceto quem sou. Enrolo cachos, prefiro samba, sei cozinhar. Faço por mim. Só vou até onde eu sou capaz. Eu te respeito, mas a mim mais. Já não preciso da aprovação de qualquer um. Eu entendi que a vida é curta, os amigos, raros, e a dor comum. Eu me pareço com muitas outras. Me diferencio de outras tais. Mas aprendemos a dar as mãos. Na diferença, encontramos paz. Não há mais volta. Nós somos únicas, nós temos voz, e vamos juntas.

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