.as mulheres da minha estante.

Eu gosto de ler. Sempre gostei. Minha casa é cheia de livros. Tenho estantes recheadas deles, sobre os mais diversos temas. Se você olhar com atenção vai achar um monte de poesia, conto, crônica e romance, além de uma porção de gramáticas, dicionários e livros de teoria literária. Tem também bastante de história, geografia, sociologia e filosofia. Eu gosto de ler quadrinhos, gosto de conhecer escritores latino-americanos, gosto da literatura brasileira contemporânea, e já me gastei em Romantismo, Modernismo e Naturalismo. Arrisco dizer que nesses 25 anos de leitura, gastei muitas horas e pensamentos com leituras boas e ruins, feitas por obrigação, curiosidade e prazer.

Não sei ao certo a quantidade de livros que tenho (talvez um dia eu os conte e os organize), mas menos de 1/4 deles foi escrito por mulheres. Mesmo a minha lista de leituras inesquecíveis possui poucos escritos femininos. Acontece que a maior parte dos livros que li foram escritos por homens. E estive pensando sobre isso.

Por esse motivo, ontem preferi comprar um livro escrito por uma mulher. Pra, quem sabe, diminuir essa desigualdade da minha estante.

O livro escolhido foi "Vida querida", de Alice Munro. Um livro de contos dessa escritora canadense, 
ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura em 2013.

Olhar com calma para a casa dos meus livros, me fez encontrar e relembrar uma porção de histórias que não posso deixar de compartilhar. As principais (e indispensáveis) leituras vieram pra essa singela lista, que vale como recomendação literária/sentimental. Recomendo cada uma delas, as escritoras e seus escritos, e desejo que elas habitem outras estantes além das minhas.

Jazz (Toni Morisson)

O livro: Em 1926, o Harlem, bairro negro de Nova York, é povoado sobretudo por gente que veio do campo em busca das promessas da cidade cintilante. O cinquentão Joe Trace, vendedor itinerante de produtos de beleza, mata com um tiro sua amante adolescente. No funeral, a cabeleireira Violet, mulher de Joe, ataca o corpo da rival com uma faca. Uma tragédia pessoal que é um prenúncio dos tempos duros que virão na década seguinte. Uma apaixonada história de amor e obsessão que avança e recua no tempo, reunindo emoções, esperanças, temores e as duras realidades da vida negra nas cidades dos Estados Unidos da primeira metade do século XX. Um livro que atravessa a alma.

A autora: Toni Morrison é uma escritora, editora e professora estadunidense. Recebeu o Nobel de Literatura de 1993, por seus romances fortes e pungentes, que relatam as experiências de mulheres negras nos Estados Unidos durante os séculos XIX e XX.

Melhores Contos (Lygia Fagundes Telles)

O livro: Uma coletânea de contos que recortam momentos significativos da história de cada personagem. Destaque para Verde Lagarto Amarelo, Apenas um saxofone e Eu era mudo e só.

A autora: Lygia Fagundes Telles é uma escritora brasileira, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1985. Seus personagens, principalmente femininos, são misteriosos e complexos, com marcas de inquietação e fragilidade.

Outros livros que vale ler: As Meninas e Ciranda de Pedra.

Aprendendo a Viver (Clarice Lispector)

O livro: É uma seleção de crônicas confessionais escritas na década de 70. O livro reúne uma série de textos em que a escritora conta sua própria vida. Em primeira pessoa, Clarice detalha passagens de sua história, divagando sobre os temas variados, revelando particularidades de seu cotidiano e esmiuçando seu processo criativo. A escritora aproveitava seu espaço no jornal de formas variadas – ela discutia acontecimentos recentes, filosofava sobre a existência, tratava de acontecimentos cotidianos e até antecipava trechos de seus romances inéditos. Um dos livros mais deliciosos que li na vida.

A autora: Clarice Lispector foi uma escritora e jornalista nascida na Ucrânia e naturalizada brasileira, autora de romances, contos e ensaios considerada uma das escritoras brasileiras mais importantes do século XX. Sua obra contém cenas simples e rotineiras, e traz tramas psicológicas, em que se destaca a epifania de personagens comuns em momentos do cotidiano.

Outros livros que vale ler: A Hora da Estrela, A Maça no Escuro e A Paixão segundo GH.

Anarquistas, graças a Deus (Zélia Gattai)

O livro: A obra retrata a aventura dos imigrantes italianos em busca da terra dos sonhos e o percurso interior da pequena Zélia na capital paulista – uma menina para quem a vida, mesmo nos momentos mais adversos ou indecifráveis, nunca perdeu o encanto. A determinação de seu Ernesto e a paixão pelos automóveis, a convivência diária com os irmãos e dona Angelina, os sábios conselhos da babá Maria Negra, as idas ao cinema, ao circo e à escola, as viagens em grupo, o avanço da cidade e da política. Nestas crônicas familiares, vida e imaginação se embaralham, tendo como pano de fundo um Brasil que se moderniza sem, contudo, perder a magia. Desses livros que todo brasileiro precisa ler.

A autora: Zéllia Gattai foi uma uma escritora, fotógrafa e memorialista brasileira, tendo também sido expoente da militância política nacional durante quase toda a sua longa vida, da qual partilhou cinquenta e seis anos casada com o também escritor Jorge Amado, até a morte deste.

Doze reis e a Moça no Labirinto do Vento (Marina Colasanti)

O livro: Treze contos de fadas, que criam um universo mágico e intemporal que interage simbolicamente com nosso inconsciente. Tecer uma nova vida com um pedaço de linha; conviver com os sonhos; dar vida ao ser amado, podando uma roseira; saber que o próprio tempo cansa-se das coisas do mundo; e muito mais. Tudo isso belamente ilustrado com o traço firme da autora. Um livro para ler nas entrelinhas.

A autora: Marina Colasanti é uma escritora e jornalista ítalo-brasileira nascida na então colônia italiana da Eritreia. Viveu sua infância na Líbia e então voltou à Itália onde viveu onze anos. Emigram para o Brasil em 1948, em razão da difícil situação vivida na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Publicou, principalmente, obras de literatura infantil e juvenil.

Outro livro que vale ler: A moça tecelã.

Jane Eyre (Charlotte Brontë)

O livro: Narra a história de vida da heroína homônima. Quebrando paradigmas e criticando a realidade vitoriana da época, Jane Eyre desafia o destino imposto às mulheres e as posições sociais que elas deveriam ocupar. Recheado de características góticas, o romance possui personagens inesquecíveis e transformadores, como a figura do misterioso Rochester, patrão de Jane e peça vital da narrativa.

A autora: Charlotte Brontë foi uma escritora e poeta inglesa, a mais velha das três irmãs Brontë que chegaram à idade adulta e cujos romances são dos mais conhecidos da literatura inglesa.

Mrs Dalloway (Virginia Woolf)

O livro: Toda a história do romance se passa num único dia, em junho de 1923, em que Clarissa Dalloway resolve ela mesma comprar flores para a festa que vai oferecer logo mais, à noite, em sua casa. A partir desta cena inicial, o romance segue a protagonista pelas ruas de Londres num ritmo cinematográfico, registrando suas ações, sensações e pensamentos. Em torno de Clarissa, gravitam vários personagens: o marido Richard Dalloway, a filha Elizabeth, um amigo de juventude que acaba de voltar da Índia, Peter Walsh, com quem ela tem grande conexão afetiva. Até mendigos que ela encontra na rua e o próprio Primeiro-Ministro vão entrar na história. Certos personagens atravessam o caminho de Clarissa, sem que ela se dê conta, e passamos a segui-los

A autora: Virginia Woolf foi uma escritora, ensaísta e editora britânica, conhecida como uma das mais proeminentes figuras do modernismo. Sua obra explora principalmente o fluxo de consciência, psicologia íntima e as tramas emocionais dos seus personagens.

Emma (Jane Austen)

O livro: Emma Woodhouse é uma mulher rica e aparentemente esnobe, mas no fundo, sua maior ambição na vida é ver os outros felizes. Quando decide que tem o talento para formar novos casais, passa a trabalhar de cupido na pequena aldeia inglesa de Hartfield. Emma foca suas atenções em Harriet Smith e em meio à busca de pretendentes para a amiga se mete em diversas confusões, sempre resgatada pelo amigo, o cavalheiro sr. Knightley.

A autora: Jane Austen foi uma escritora inglesa do século XXIII, criadora de personagens marcantes e que fazem sucesso até os dias de hoje. Com levantamento de questões sobre a educação da mulher e conservadorismo de sua época.

Outros livros que vale ler: Razão e Sensibilidade, Persuasão e Orgulho e Preconceito.

Harry Potter e a Câmara Secreta (J.K. Rowling)

O livro: Depois de um ano estudando na escola de bruxos de Hogwarts, Harry volta para passar as férias de verão na casa dos tios, mesmo contra sua vontade. Quando ele já se prepara para retornar às aulas, recebe uma enigmática mensagem dizendo que a sua volta a Hogwarts causará um grande desastre. Descubra o significado desta estranha carta.

A autora: J.K. Rowling é uma escritora britânica de ficção, autora dos sete livros da famosa e premiada série Harry Potter, que explora um mundo de fantasia e aventura.

Luna Clara e Apolo Onze (Adriana Falcão)

O livro: Desencontros levam os pais de Luna Clara – Doravante e Aventura – a se perder e a se encontrar. O avô da menina, Erudito, perde as histórias que havia colecionado e também o papagaio. As tias perdem os namorados. Em um constante ir e vir, na região de Desatino do Norte, as vidas de Luna Clara e Apolo Onze acabam se cruzando.

A autora: Adriana Falcão é roteirista e escritora brasileira contemporânea. Suas obras infanto-juvenis são poéticas e bem humoradas, agradando também o público adulto.

Outros livros que vale ler: Mania de Explicação e Pequeno Dicionário de Palavras ao Vento.


Não é só na minha estante que moram menos escritoras do que escritores. Uma pesquisa divulgada pela editora Alpaca, em maio de 2014, aponta que 50% das pessoas leem cerca de 10 livros por ano e somente cerca de 1 a 3 livros são  escritos por mulheres. O portal Women in Literary Arts, que verifica a presença numérica das mulheres na literatura, comprova que há uma divisão entre a presença dos gêneros nos principais jornais do mundo, em que as mulheres representam um número muito menor entre as autoras de obras resenhadas.

Alguma coisa nessa conta não tá fechando. E é preciso pensar sobre isso também. 

 

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