.ao redor.

Quando eu descobri ser adotada, eu olhei um pouco pro passado. Imaginei os cacos de uma outra mulher, assim como eu. Com suas próprias dores, com suas próprias escolhas, e medos, e coragem.

Quando eu descobri ser adotada, eu pensei em minha mãe. No zelo destes 34 anos, e nos detalhes de um amor que me ensinou a pintar as unhas, a fazer comida e a gostar de mim.

Quando eu descobri ser adotada, eu amei ainda mais meu pai. Porque encontrei nele uma grandeza que eu não conhecia.

Quando eu descobri ser adotada, eu lembrei dos meus tios que sempre sorriram pra mim, e que agora carrego no peito as marcas que me deixaram. O afeto. O afeto.

Quando eu descobri ser adotada, eu olhei pra minha avó, e não achei nada que não se encaixasse na nossa história. Ela também soube ser minha, e me deixou ser dela.

Quando eu descobri ser adotada, eu desejei ter aprendido a chamar meu padrasto de pai.

Quando eu descobri ser adotada, eu parei em frente ao espelho por longos minutos. E tive medo por não saber com quem pareço, de onde são meus traços, como vou envelhecer e e quais armadilhas a genética pode reservar pra mim.

Quando eu descobri ser adotada, gastei horas tentando entender porque meus amigos estavam tão preocupados comigo. Eu me sabia amada, e isso sempre me bastou.

Quando eu descobri ser adotada, eu abracei forte meu filho, para dizer a ele que eu escolhi ser sua mãe. Eu quis. Não foi obra do acaso. Eu quis. De coração aberto e cheio de amor, como minha mãe fez.

Quando eu descobri ser adotada, eu percebi que as pessoas não sabiam como agir comigo, e as vezes eram insensíveis querendo saber de coisas que podiam dolorir. Por trás de uma adoção, existe sim uma história triste, e é preciso perguntar com cautela, ou simplesmente não perguntar. A curiosidade alheia me feriu as vezes.

Quando eu descobri ser adotada, eu odiei a expressão “mãe de criação”. Toda mãe é de criação.

Quando eu descobri ser adotada, eu tive vontade de viver minha vida inteira de novo, porque ela tem sido boa desde o dia que me lembro, e eu repetiria tudo para chegar aqui novamente.

Quando eu descobri ser adotada, eu chorei, eu fiz piada, eu escrevi, eu conversei, eu me permiti sentir tudo que vinha e ía no meu coração.

Quando eu descobri ser adotada, eu tentei me colocar no lugar das outras personagens da história, com empatia, com amor.

Quando eu descobri ser adotada, eu olhei minha certidão de nascimento e quis saber se a data estava certa, e o que tinha de verdade ou mentira ali. Eu confesso que eu só queria ter certeza de ser leonina.

Quando eu descobri ser adotada, eu quis contar pra todos que amo. Eu quis escrever uma história, e uma carta de amor.

Quando eu descobri ser adotada, eu amei ainda mais minhas primas. E entre elas, ganhei uma irmã.

Quando eu descobri ser adotada, eu me senti mais plena, mais forte, e com mais vontade de ser feliz.

Quando eu descobri ser adotada, eu me senti sortuda. E fiquei grata. Porque essa vida só me cercou de amor, e eu não tenho do que reclamar.

Quando eu descobri ser adotada, tudo mudou e, ao mesmo tempo, não mudou nada.

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Last Modified on novembro 14, 2018
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