.a ferida aberta do medo. 

Quando se ouve falar de um estupro, coletivo ou não, de uma menina, uma jovem ou uma mulher, a nossa ferida fica exposta. Aberta, ela já é.

Quando a gente retoma a percepção de que a alma masculina pode ser barbaramente sombria, o nosso corpo inteiro dói. Como se a sensibilidade da nossa ferida se espalhasse por todo nosso ser. O curativo da coragem, da indepêndencia e do “vamos juntas” cai.
Quando o não vale menos que a força, quando a consciência vale menos que a piada e as justificativas ultrapassam a compaixão, a ferida se alastra feito metástase.

Quando a gente pensa na dor de outra mulher, seus gritos (silenciados ou não) ecoam dentro de nós, e a gente perde o equilíbrio e se entrega à vertigem desesperadora.

Quando a liberdade, o corpo ou o poder de decisão de uma mulher (qualquer uma) são violados, a nossa ferida dilata, inflama e contagia.

Quando a mulher vira vítima, todas as feridas de todas as mulheres infeccionam. E a gente sangra pra todo mundo ver.

Quando uma mulher tem sua nudez divulgada sem consentimento, as nossas pupilas se dilatam e todo homem vira possível inimigo.

Quando as pernas de uma mulher se abrem por mãos violentas, é como se como se as mesmas mãos sujas e selvagem nos lancinassem a ferida sensível.

Quando a gente se coloca no lugar de uma mulher violentada, o sofrimento, a angústia e a agonia não “formas de expressão”, não são “um jeito de dizer”, não são “figura de linguagem”. É de verdade que dói.

Quando a gente entende que estupro é também tortura, os nossos pesadelos ocupam também os dias claros e os olhos abertos.

Quando a nossa ferida fica assim exposta e cheia de pus, a gente se recorda que para nós todas as ruas são escuras, todos os homens são adversários em potencial e que nossa segurança é cercada de fragilidade.

Quando o trauma está posto, a nossa ferida aumenta de tamanho.

Quando a gente abre a janela e se depara com esse tanto de crueldade, os 30 homens são mais de mil e a menina é, na verdade, todas.

Aconteceu com ela. E a gente sabe que não há abraço que console, momento bom que apague a memória ou tatuagem que desfaça as marcas. Não é porque podia ter sido com a gente. É porque foi com ela.

A nossa ferida está aberta. A nossa chaga foi exposta. E a nossa dor é crônica.

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