.todas as coisas sobre as quais não vou escrever.

O susto de descobrir uma gravidez fora dos planos (e a alegria que vem depois). Enjoo e queimação. A graça e o medo de ver a barriga crescer. O sentimento inexplicável de sentir o bebê mexer. A angústia da espera pela chegada natural. Todas as besteiras que a gente ouve no final da gravidez. A vitória da coragem sobre o medo. A alegria de parir e a força, autoestima e poder que a gente ganha com isso. O medo de não se adaptar à nova parte da nossa vida. Baby blues*. A importância de chorar, de conversar e ter rede de apoio*. Como um companheiro não deve ser um ajudante, mas sim um parceiro. Como amamentar é duro no começo. Os novos significados para sono, paz, sossego. A dor de ver um filho doente. A mágica do tetê e colinho. A aventura de botar os pés pra fora de casa. O reconhecimento das pequenas conquistas diárias. A aceitação das pausas e do tempo “não produtivo”. A saudade da “dor” do parto. A lembrança gostosa do barrigão. O drama das vacinas. Como executar tarefas cotidianas com uma mão só. O novo olhar para todas as boas mães do mundo e, especialmente, pra nossa própria. A gratidão. O amor.

Quase 4 meses de maternagem. Quase 4 meses do dia em que tudo mudou. Quase 4 meses da experiência mais insana dessa vida.

Seguimos por aqui somando sensações sobre as quais não saberei (ou poderei) escrever.

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* Na verdade, sobre Baby Blues eu escrevi aqui. E sobre “rede de apoio”, aqui.

.feliz dia das mães reais.

Mãe é ser humano. Precisa dormir, precisa comer, precisa de afeto. Não sobrevive apenas de olhares e sorrisos de filho, embora esses a alimentem também de certo modo. Mãe não é santa. Erra, esquece, confunde, grita, sente desejo. As vezes quer fugir, de vez em quando precisa estar só. Instinto materno não é unanimidade. A maior parte das vitórias na criação e cuidado dos filhos acontece por tentativa e erro, busca por informação confiável e exemplo de outras mães. Ser mãe é também algo que se aprende. Mãe pode trabalhar fora e gostar disso. Mãe pode ler livros que não sejam infantis, ver filmes que não sejam animações e ouvir canções que não sejam de ninar. Os prazeres de antes de ser mãe não somem depois do parto. Mãe pode querer ainda ter tempo para as coisas que outrora ocupavam seus dias. A vida da mãe não é a vida do filho. A vida da mãe é a vida da mãe, e o filho faz parte dela. Ser mãe muda quem a gente é, mas não a ponto de esquecermos completamente quem fomos. Ser mãe é adaptação e não abdicação. As mães não são todas iguais. As mães não têm sempre razão. As mães não são a prova de cansaço. É forte, mas não é de ferro. Ninguém é. As mãe também são humanas. Sentem medo, tristeza, dor. Têm seus próprios sonhos e necessidade de voar. Não se preenchem apenas de bondade, altruísmo e benevolência. Mãe não é ser mitológico, heroína ou deusa – embora as vezes pareça. Mãe é mulher. Mãe é gente. E para amar desse tanto precisa ser.

.joão.

Partiu de mim. Rebento. E logo de cara, me olhou. Abocanhou meu seio como se não quisesse me deixar. Como se dissesse: fica calma que eu te guio. Meu coração cresceu na mesma medida que a barriga que o abrigou por 40 semanas e 1 dia. Lindo. Cria. Meu. Chegou no seu tempo. Desbravou minhas entranhas com coragem e precisão. Partiu de mim, sem me escapar por completo. Mora agora no meu abraço, no meu colo, bem debaixo da minha asa. Cheiro, cor, riso. Do parto, parte. A parte mais importante de tudo que já vivi, fui, senti. Filho. Filho. As vezes nem acredito. Me fez mais forte, mais humana e mais feliz. Obrigada, João. Vamos juntos.

.deserto.

Estar só tem suas dores e delícias. Uma casa vazia pede som, um passeio sem companhia possibilita pensamentos necessários, um momento de abandono traz valor aos reencontros. Mas solidão assusta, porque é mais que isso. Há tanta gente cercada de gente se sentindo desamparada, e há tanta gente caminhando sozinha que se sente abraçada pelo mundo. Essa solidão sólida, do ambiente, do que nos cerca, da falta da coisa, da falta da pessoa, ou das, do quarto fechado, sem nada, não assusta tanto quanto a solidão que mora dentro e persiste. É preciso separar bem. Solidão mesmo é a da sensação, e não do estar sendo. Há uma solidão que mexe dentro, e profundamente, ainda que se esteja cercado de bons amigos, dias de sol, pai, mãe, irmãos e filhos. A solidão real, que come pedaços da alma,  é algo que passeia pelas veias, neurônios e músculos. É o extremo da sensação de que estamos todos à deriva, sob o descontrole do acaso, sob as mutações inevitáveis das pessoas, e a efemeridade da existência. É o sútil entendimento do óbvio: há necessidade urgente e constante de desapegar-se. E isso não precisa ser de todo ruim. Chega até a ser
um bom exercício da própria individualidade. Do estar confortável consigo mesmo – bem primordial para o bem estar das relações, inclusive.  Lagrimar, espernear, entristecer é parte do nosso caminho. Aprende-se sobreviver aos desertos transitivos. Pede-se que estejamos atentos ao processo, pra enxergar os exageros e as patologias. Depois da solidão dolorida, em que a alma se desfaz, um reconhecimento do vazio externo, acaba por preencher o que há dentro com coisas nossas. Tornar-se aos poucos, uma boa companhia pra si mesmo tem o seu valor nessa constante realidade em que as coisas se quebram, as pessoas se vão, a juventude é fugaz. Ser assim, tão si em si mesmo, tem que bastar. É só na solidão que se encontra, é só na solidão que se levanta. E só se encontrando pode-se realmente encontrar alguém. Mais que isso: a solidão é individual e singular como poucas coisas são. E serve bem como impulso para as escolhas das quais não podemos fugir, de quem somos, quem queremos ser, pra onde estamos indo e com quem.

.todos os dias.

A vida nos desafia. Mais ainda quando a gente está desatento. Um minuto de distração, e quando paramos pra reparar, tudo mudou de novo. Porque a vida não gosta de inércia. Prefere nos pôr a sacudir. Alvoroçar a ordem das coisas e estremecer nossas estruturas pessoais.  Quanto mais a gente finge ter controle, mais a vida altera o mundo pra que a gente não se acomode. Se a gente olhar bem de perto, talvez não haja um dia sequer em que não sejamos provocados pela vida, ou do lado de dentro ou do lado de fora. Porque coisas grandes e pequenas passam por nós, e toda espécie de gente, e todo tipo de experiência e sentimento e pensamento. A vida, definitivamente, não é algo que fica a nos observar apenas, ela nos chama pra peleja, nos incita a ser melhores, e nos empurra a caminhar. Não fosse isso, não faríamos casas, nem filhos, não existiram foguetes, nem vinho, nem discos de vinil. Não fosse a vida nos afrontando, as paixões não seriam assim tão arrebatadoras, as raivas não seriam tão destruidoras e as amizades não se fariam tão necessárias. Tudo que dói é a vida nos chamando pro combate. Tudo que nos faz rir é a vida nos dizendo que valeu a pena recomeçar. E sempre valerá.

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