.enquanto me olho no espelho.

Todos os encontros que tive me trouxeram até aqui. Os bons e os ruins, os leves e os agoniados. Todos os abraços que dei, todos os amores que vivi. As noites mal dormidas e as manhãs em que acordei em camas que não eram minhas. As horas gastas com conversa boa. O tempo de aconchego no colo de minha mãe. Meus irmãos, meus avós, meus primos. Tudo que fiz, tudo que preferi não fazer, onde ousei e onde temi. Tudo isso me trouxe até aqui. As vezes em que abri o coração, as outras, em que calei um sentimento qualquer. Foram os dias em que cai e me levantei, foram os dias em que simplesmente caminhei que me fizeram ser quem sou. O filho que tive. Os gostos que provei. Os livros que li. Até quem deixei pra trás e tão mais quem me deixou ir. As mudanças que assisti, as transformações que eu quis pra mim. Os amigos com quem dancei, viajei, experimentei, fui inteira. Todo lar que chamei de meu e toda casa que foi feita em mim. As escolhas que me couberam e os empurrões dos quais não fugi. Foi cada momento passado, foi todo sentimento intensamente vivido. As lembranças que guardo com cuidado e as saudades que carrego onde vou é que me fazem ser quem sou. Não sou feita só de sangue e carne, nem aceito sem questionar o dito pelas estrelas. É meu olhar e o caminhar que me impulsionam. Todo dia estou nova, e todo dia sigo em frente. Ora dizendo não, ora gritando sim. O que me define não me limita. E agora que sou tão outra sei ainda mais de mim.

Ilustração de Henn Kim

.o sono dele.

Ele demora a adormecer. É muita vida pra viver. Só cede quando o cansaço vence, e é hora de crescer um pouco mais. Pequeno corpo em repouso respira calmo e sereno, como se esse mundo fosse todo feito pra ele. Ele está só começando, e a cada amanhecer algo é novo aos seus olhos. A tranquilidade intervalada é de instinto, e por afeto e sustento. Não o culpo. Ele sabe que para sobreviver é preciso abrir bem os olhos, e as vezes gritar bem alto. Eu abraço e reparo antes de descansar, porque sei que nenhum dia será como o anterior. Ele aqui, eu ao lado, vai passar. Nós dois nesse tempo, desse modo, no silêncio e no sossego desse sono de bebê vai passar. São duros meus despertares. Mais duro ainda é saber que vai passar.

Enquanto ele dorme, sonho.

Ilustração de Carolina Buzio

.tempo, tempo, mano “véio”.

Faço as pazes com o tempo, com a duração relativa das coisas, com a ideia de passado, futuro e presente. O presente como um presente. Já. A continuidade. Período determinado entre uma coisa e outra. Durante. A duração de tudo. De uma partida de futebol, um jogo qualquer, uma corrida que atropela os segundos. Estações, meses, horas. Substantivo masculino, as vezes arrastado, as vezes veloz. Sempre intangível, sempre imperativo. Um certo momento que se distingue de outros. Que passa. Que passa . Que passa. Faça chuva ou faça sol. É tempo. Condição meteorológica. E passa. Período específico, segundo quem fala, de quem se fala ou sobre quem se fala. Categoria verbal que indica o momento em que se dá o fato expresso pelo verbo. O quando. Ontem, amanhã. Tempo é vento. Tempo é tempestade. Faço as pazes com o tempo, e as águas que leva e traz. Gentes, rugas, saudades. O ritmo das coisas. Unidade abstrata de medida da música. Acelera, pulsa, para. É preciso ouvir. É preciso sentir. Tempo. Etapa, prazo, era. Fase, ocasião, vez. Ciclo. Ouve. Tudo é tempo. Nem sempre se pode medir. Sente. A gente só tem o agora.

(Ilustração de Andrea de Santis)

.todas as coisas sobre as quais não vou escrever.

O susto de descobrir uma gravidez fora dos planos (e a alegria que vem depois). Enjoo e queimação. A graça e o medo de ver a barriga crescer. O sentimento inexplicável de sentir o bebê mexer. A angústia da espera pela chegada natural. Todas as besteiras que a gente ouve no final da gravidez. A vitória da coragem sobre o medo. A alegria de parir e a força, autoestima e poder que a gente ganha com isso. O medo de não se adaptar à nova parte da nossa vida. Baby blues*. A importância de chorar, de conversar e ter rede de apoio*. Como um companheiro não deve ser um ajudante, mas sim um parceiro. Como amamentar é duro no começo. Os novos significados para sono, paz, sossego. A dor de ver um filho doente. A mágica do tetê e colinho. A aventura de botar os pés pra fora de casa. O reconhecimento das pequenas conquistas diárias. A aceitação das pausas e do tempo “não produtivo”. A saudade da “dor” do parto. A lembrança gostosa do barrigão. O drama das vacinas. Como executar tarefas cotidianas com uma mão só. O novo olhar para todas as boas mães do mundo e, especialmente, pra nossa própria. A gratidão. O amor.

Quase 4 meses de maternagem. Quase 4 meses do dia em que tudo mudou. Quase 4 meses da experiência mais insana dessa vida.

Seguimos por aqui somando sensações sobre as quais não saberei (ou poderei) escrever.

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* Na verdade, sobre Baby Blues eu escrevi aqui. E sobre “rede de apoio”, aqui.

.feliz dia das mães reais.

Mãe é ser humano. Precisa dormir, precisa comer, precisa de afeto. Não sobrevive apenas de olhares e sorrisos de filho, embora esses a alimentem também de certo modo. Mãe não é santa. Erra, esquece, confunde, grita, sente desejo. As vezes quer fugir, de vez em quando precisa estar só. Instinto materno não é unanimidade. A maior parte das vitórias na criação e cuidado dos filhos acontece por tentativa e erro, busca por informação confiável e exemplo de outras mães. Ser mãe é também algo que se aprende. Mãe pode trabalhar fora e gostar disso. Mãe pode ler livros que não sejam infantis, ver filmes que não sejam animações e ouvir canções que não sejam de ninar. Os prazeres de antes de ser mãe não somem depois do parto. Mãe pode querer ainda ter tempo para as coisas que outrora ocupavam seus dias. A vida da mãe não é a vida do filho. A vida da mãe é a vida da mãe, e o filho faz parte dela. Ser mãe muda quem a gente é, mas não a ponto de esquecermos completamente quem fomos. Ser mãe é adaptação e não abdicação. As mães não são todas iguais. As mães não têm sempre razão. As mães não são a prova de cansaço. É forte, mas não é de ferro. Ninguém é. As mãe também são humanas. Sentem medo, tristeza, dor. Têm seus próprios sonhos e necessidade de voar. Não se preenchem apenas de bondade, altruísmo e benevolência. Mãe não é ser mitológico, heroína ou deusa – embora as vezes pareça. Mãe é mulher. Mãe é gente. E para amar desse tanto precisa ser.